Após grande procura por ingressos, "Cenas da Menopausa" estrelado por Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello abre nova sessão no sábado (30), no Cineteatro São Luiz; atriz fala com o DIVIRTA-CE sobre etarismo, potência feminina e o impacto social da montagem na entrevista para Felipe Muniz Palhano
Depois de mobilizar milhares de espectadores pelo Brasil e Portugal, o espetáculo “Cenas da Menopausa” desembarca em Fortaleza cercado de expectativa — e agora com sessão extra confirmada no sábado (30), às 15h, devido à alta procura por ingressos. Estrelada por Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello, a comédia musical entra em cartaz no Cineteatro São Luiz entre os dias 29 e 31 de maio, trazendo ao palco humor, música e uma conversa franca sobre uma fase ainda cercada por tabus: a menopausa.
Mais do que um espetáculo, a montagem vem se consolidando como um espaço de identificação coletiva. Entre gargalhadas, relatos emocionados e um bate-papo com o público ao final das apresentações, “Cenas da Menopausa” tem provocado discussões sobre envelhecimento, desejo, saúde hormonal, relacionamentos e o papel da mulher 50+ na sociedade contemporânea.
Em entrevista ao DIVIRTA-CE, Claudia Raia — que protagoniza a peça ao lado do marido, Jarbas Homem de Mello — fala sobre a dimensão social da montagem, a quebra do etarismo, as conexões entre sua vida pessoal e a personagem Teresa, além da força política do humor para abordar temas historicamente silenciados.
A atriz, hoje com 59 anos, vive um momento singular: maternidade recente, casamento maduro, reinvenção profissional e um espetáculo que dialoga diretamente com transformações vividas por ela própria. “A menopausa não é o fim, é o início de um novo ato”, resume.
DIVIRTA-CE: Você já disse que Cenas da Menopausa ultrapassou o entretenimento e virou quase um espaço de acolhimento para mulheres e famílias. Em que momento você percebeu que a peça tinha deixado de ser apenas uma comédia musical e se tornado também uma ferramenta de transformação social?
CLAUDIA RAIA: Quando o espetáculo deixou de terminar no aplauso e passou a continuar nas rodas de conversa. No final de cada sessão, eu me vulnerabilizo e abro espaço para que o público também compartilhe suas dores, suas dúvidas e essa busca por entender o que está acontecendo com o próprio corpo e, muitas vezes, por encontrar caminhos de cuidado e tratamento. O teatro assumiu um papel de prestação de serviço: acolhimento, escuta e identificação. E o mais bonito é ver que a peça não é só para mulheres: é para homens e jovens também. Tem marido, filho, adolescente tentando entender essa mulher em transformação. A menopausa atravessa a família inteira e quando a gente ri disso junto, algo se abre. O humor baixa a guarda, e a conversa finalmente acontece. Virou uma catarse coletiva. Eu costumo dizer que é um serviço público com glitter, música e fogacho.
DIVIRTA-CE: Você vive hoje uma fase muito singular: maternidade de um filho pequeno, casamento, maturidade profissional e uma personagem que enfrenta justamente os atravessamentos físicos e emocionais do climatério. O quanto existe de Claudia em Teresa — e o quanto você precisou se afastar de si para construí-la?
CLAUDIA RAIA: Tem muita Claudia em Teresa, talvez até demais (risos). Eu vivi tudo aquilo: calores, insônia, névoa mental, dores, essa montanha-russa hormonal. Nos ensaios, meu corpo chegou a reviver sintomas que eu já tinha superado. Mas a Teresa também é muitas mulheres. Ela é essa mulher que tenta dar conta de tudo enquanto por dentro tudo está em transformação. Por isso tanta gente se reconhece nela. E eu também vivo uma fase muito simbólica: maternidade tardia, um bebê pequeno, um casamento maduro e uma gravidez aos 55 anos no meio da menopausa. Nem os médicos tinham protocolo para isso. Minha vida acabou desmontando muitas certezas sobre idade, potência e feminilidade.
DIVIRTA-CE: A televisão e o entretenimento brasileiros durante décadas venderam uma imagem feminina quase incompatível com o envelhecimento. Você sente que Cenas da Menopausa ajuda a romper um etarismo estrutural, mostrando a mulher 50+ como protagonista de desejo, potência, humor e reinvenção?
CLAUDIA RAIA: A mulher 50+ foi empurrada por muito tempo para a invisibilidade, como se precisasse desaparecer. Mas essa mulher de hoje não cabe mais nesse lugar. Ela trabalha, deseja, recomeça, se reinventa, se diverte, se transforma. O espetáculo mostra exatamente isso: mulheres vivas, contraditórias, engraçadas, emocionais, sensuais, ativas sexualmente, mulheres à frente de negócios, liderando empresas, são mulheres potentes. Na peça ressaltamos que a menopausa não é o fim, é o início de um novo ato. Nós não queremos ser invisíveis. Estamos na nossa fase mais poderosa, temos conhecimento, podemos ter calma, tomar as melhores decisões e conquistar tudo que queremos e sonhamos.
DIVIRTA-CE: A peça escolhe rir de algo que para muitas mulheres é doloroso e solitário. Você acredita que o humor pode ser uma forma de enfrentamento político dos silenciamentos impostos ao corpo feminino?
CLAUDIA RAIA: O humor é profundamente político. Porque a menopausa, sozinha, não tem nada de leve, é um processo duro, confuso e muitas vezes solitário. Mas quando a gente ri disso junto, em coletivo, algo muda. O riso quebra o tabu, tira a culpa e mostra que ninguém está sozinha nem “enlouquecendo”. Fomos ensinadas a atravessar o corpo em silêncio: cólica, gravidez, puerpério, menopausa. Só que a menopausa te obriga a olhar para si mesma. Encontrar novos caminhos. É uma revolução. Então, transformar isso em cena, música e riso é também um ato de resistência. É uma forma de dizer: não vamos mais viver isso caladas.
DIVIRTA-CE: Depois de décadas sendo chamada de ‘rainha dos musicais’, de montagens grandiosas como Cabaret, Sweet Charity e agora Tarsila, como você enxerga a evolução do teatro musical brasileiro? Ainda é um gênero elitizado ou houve democratização real do acesso?
CLAUDIA RAIA: O teatro musical brasileiro evoluiu muito. Antes parecia algo distante, quase importado. Hoje temos uma cena potente, com autores, diretores e artistas brasileiros falando da nossa realidade. Ainda existe o desafio do acesso, como na cultura em geral, mas vejo um público muito mais diverso e interessado. Cenas da Menopausa é um exemplo disso: um musical popular que fala de etarismo, saúde, desejo, casamento e invisibilidade feminina. Já são mais de 250 mil espectadores que nos prestigiaram. Isso é um acontecimento! Sigo acreditando profundamente no teatro. O teatro é o ao vivo, o encontro, a troca. Nada substitui isso.
DIVIRTA-CE: A peça fala muito do “segundo ato da vida”. Aos 59 anos, depois de tantas personagens icônicas, musicais e reinvenções pessoais, qual é o segundo ato que Claudia Raia ainda sente que precisa viver — no palco ou fora dele?
CLAUDIA RAIA: Estou descobrindo agora quem eu quero ser, e isso é muito bonito. Quero viver com mais calma, mais consciência e mais escolha sobre onde coloco minha energia. Ainda quero fazer muito teatro, produzir, dirigir e contar histórias de mulheres reais, que por muito tempo não tiveram espaço. Mas também quero viver meu segundo ato fora do palco: acompanhar meu filho crescer, amar com mais leveza, envelhecer sem pedir desculpas e continuar curiosa com a vida. A menopausa me ensinou isso: maturidade não é perda. É elevação. E o segundo ato, no teatro e na vida, é sempre o mais interessante.
SERVIÇO
Cenas da Menopausa
Sessões: 29 de maio (sexta-feira, às 20h), 30 de maio (sábado, sessão extra às 15h e sessão às 18h) e 31 de maio (domingo, às 18h)
Local: Cineteatro São Luiz
Endereço: Rua Major Facundo, 500 – Centro, Fortaleza (CE)
Classificação: 14 anos
Duração: 90 minutos
Ingressos: de R$ 100 a R$ 250