Luiz Caldas, precursor do axé music, lança “Piscadinha” e inicia mais uma maratona de shows no Carnaval pelo Nordeste. (Foto: Divulgação)
POR FELIPE PALHANO
Criador do movimento que redefiniu o Carnaval baiano, artista fala ao O ESTADO sobre trajetória, identidade cultural, legado e anuncia agenda de shows pelo Nordeste
Criador do movimento que viria a ser conhecido mundialmente como axé music, Luiz Caldas atravessa mais de quatro décadas como um dos nomes centrais da história do Carnaval brasileiro. Multi-instrumentista, cantor, compositor e produtor, o artista baiano transformou o som dos trios elétricos a partir dos anos 1980, inaugurando uma linguagem musical que extrapolou a folia de Salvador e se tornou símbolo da cultura popular do país.
Em entrevista ao DIVIRTA-CE, Luiz Caldas comenta o lançamento de “Piscadinha”, canção escrita por Roberta Miranda especialmente para ele e apresentada agora com espírito de trio elétrico, sem abrir mão de uma delicadeza rara no universo da música carnavalesca. A faixa chega como aquecimento para mais uma maratona de shows do artista durante o Carnaval, período em que ele percorre Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Ao longo do bate-bola, Luiz Caldas revisita sua trajetória desde a infância, reflete sobre a criação do axé como movimento cultural, analisa a evolução da festa e fala sobre identidade, resistência, alegria e legado. Entre memórias e afirmações contundentes, reafirma seu lugar como um dos principais arquitetos sonoros do Carnaval da Bahia e do Brasil.
DIVIRTA-CE – “Piscadinha” traz um clima romântico e sutil em pleno espírito de trio elétrico. Quando recebeu essa canção da Roberta Miranda, qual foi sua reação imediata — e como você traduziu essa sensibilidade em energia para a rua, sem perder a essência dançante do axé?
LUIZ CALDAS – A canção chegou até mim por meio de um telefonema da Roberta Miranda. Ela me contou que havia composto essa música há cerca de dez anos especialmente para mim, mas que nunca tivemos tempo — nem ela teve coragem — de me mostrar. Segundo Roberta, a canção se distanciava muito da origem do trabalho dela, ligada ao sertanejo romântico, enquanto dialogava com um universo mais dançante, que é justamente o território onde atuo.
Quando ouvi “Piscadinha” pela primeira vez, percebi uma forte referência aos anos 1960, com aquela ingenuidade encantadora típica da época. Aos poucos, a música foi me conquistando. Transformá-la em axé foi um processo natural. Como sou multi-instrumentista e produtor, consigo conduzir qualquer composição para esse universo sonoro sem perder a identidade.
DIVIRTA-CE – Você começou muito jovem na música e acabou criando, com “Magia”, o que hoje chamamos de axé music. Ao olhar para a Salvador dos anos 1980, o que faltava à música baiana que o axé veio proporcionar?
LUIZ CALDAS – Eu comecei muito cedo, com sete anos de idade. Nasci em Feira de Santana, depois fui para Vitória da Conquista por conta da profissão do meu pai, que era da Polícia Rodoviária Federal, e foi lá que tive meu primeiro contato com a música. Aquilo entrou em mim de um jeito que nunca mais saiu.
Quando cheguei a Salvador, ainda adolescente, com 16 anos, já tocava no Trio Tapajós e gravei discos. Naquela época, o Carnaval era dominado pelo frevo, que vinha muito forte de Pernambuco, mas adaptado à nossa essência por nomes como Moraes Moreira e o trio Armandinho, Dodô e Osmar. Só que eu vinha do baile, que é muito rico em diversidade musical. Tocar horas seguidas só frevo me inquietava. Foi aí que senti que era hora de mudar a estrutura, de misturar, de criar algo novo. E isso acabou virando o axé, que até hoje é a cara de Salvador.
DIVIRTA-CE – Qual é o papel da música de Carnaval na construção da identidade cultural do Brasil e da Bahia?
LUIZ CALDAS – O Carnaval está sempre evoluindo, mudando. E o axé continua sendo central nisso tudo porque ele não é um estilo musical, é um movimento. Você não pode comparar Ivete Sangalo com Margareth Menezes, Bel Marques com Saulo Fernandes. Todos fazem axé, mas são completamente diferentes. O axé é esse caldeirão onde cabe tudo, e é justamente isso que constrói a identidade cultural da Bahia e encanta o mundo.
DIVIRTA-CE – Sua carreira sempre transitou por muitos estilos. Como você encara essa versatilidade hoje?
LUIZ CALDAS – A versatilidade sempre foi palavra de ordem na minha vida. No baile, eu tocava de Stevie Wonder a Martinho da Vila, de Roberto Carlos a Frank Sinatra. Isso tudo me formou. O crescimento como músico veio desde criança, com estudo e curiosidade. Gravei discos praticamente sozinho, tocando todos os instrumentos, produzindo. Hoje existe muita tecnologia, até IA, mas o conhecimento musical é algo divino. Quem tem isso nunca fica triste.
DIVIRTA-CE – O que foi preservado do espírito original do axé e o que precisa ser reinventado?
LUIZ CALDAS – Eu deixo claro: axé não é estilo musical, é movimento cultural baseado no Carnaval e na alegria. Não existe essa coisa de fidelidade ao “original”. O que precisa, na verdade, é de mais proteção do próprio Estado, da Bahia, assim como outros lugares protegem suas culturas e folclores.
DIVIRTA-CE – Em que momento o Carnaval passou a significar algo além da alegria?
LUIZ CALDAS – Quando você é criador de um movimento, está no centro de um furacão e não percebe isso na hora. Lá por 1985, com o disco “Magia”, o Brasil inteiro começou a cantar a música da Bahia. Mas foi depois, especialmente com “Tieta”, entre 1989 e 1990, que percebi que o axé tinha dado identidade à Bahia, ao Carnaval e a mim como artista. Não é qualquer um que cria um movimento curtido por milhões no mundo inteiro.
DIVIRTA-CE – Que legado você acredita estar deixando?
LUIZ CALDAS – Eu me sinto muito feliz e honrado. A música é a minha vida. Ser bem-sucedido fazendo o que você ama não tem preço. Sei que meu nome já está na história do Carnaval brasileiro, como criador de um movimento que transformou a festa na Bahia e em outros lugares do Brasil e do mundo. E espero também ser lembrado como um grande músico, instrumentista e violonista. Isso já me deixaria plenamente realizado.
CARNAVAL 2026 | AGENDA DE SHOWS –
15/02 – Natal (RN) – Ginásio Nélio Dias
16/02 – Salvador (BA) – Circuito Barra-Ondina
17/02 – Salvador (BA) – Planeta Band
27/02 – Aracaju (SE) – Verão Caju
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