Entrevista por Felipe Palhano
Em cartaz neste sábado (18) e domingo (19) na CAIXA Cultural Fortaleza, espetáculo "Fim de Partida" reúne Marco Nanini, Helena Ignez, Ary França e Guilherme Weber em uma das mais importantes obras do teatro moderno. Ao DIVIRTA-CE, o ator relembra a parceria com Nanini, reflete sobre o legado de Samuel Beckett e afirma: "O teatro solicita coisas que você não vai fazer em outros veículos." Com uma trajetória consolidada entre os maiores nomes das artes cênicas brasileiras, Guilherme Weber construiu uma carreira que transita com naturalidade entre o teatro, o cinema e a televisão.
Fundador da Sutil Companhia de Teatro ao lado de Felipe Hirsch, o ator tornou-se referência da cena teatral contemporânea e também conquistou o grande público em produções da TV Globo, como "Da Cor do Pecado", "Belíssima", "Queridos Amigos", "Tempos Modernos", "Pega Pega", "Cara e Coragem" e, mais recentemente, "Volta por Cima". Além de ator, também atua como diretor e roteirista, acumulando prêmios no teatro e no cinema.
Neste último fim de semana de temporada na CAIXA Cultural Fortaleza, Weber divide o palco com Marco Nanini, Helena Ignez e Ary França em "Fim de Partida", clássico de Samuel Beckett dirigido por Rodrigo Portella. A montagem apresenta uma reflexão contundente sobre poder, dependência, solidão e sobrevivência, em um texto considerado um dos mais importantes da dramaturgia do século XX.
Em entrevista exclusiva ao DIVIRTA-CE, Guilherme Weber fala sobre os desafios de interpretar Clov, a parceria retomada com Marco Nanini após mais de duas décadas, a impressionante atualidade de Beckett e seus próximos projetos. Ao comentar a essência do teatro, resume:
"O teatro solicita coisas que você não vai fazer em outros veículos... uma sensação quase quântica de que você movimenta moléculas da atmosfera entre você e o espectador." Sobre a permanência de Clov ao lado de Hamm, apesar do desejo constante de partir, o ator observa: "Talvez o Clov seja esse neurótico por excelência da definição do Lacan, eternamente arrumando a mala para uma viagem que nunca vai fazer." Já sobre a montagem ao lado de Nanini, destaca: "Esperar tanto para fazer 'Fim de Partida' também tinha esse propósito: chegar mais próximo dos personagens e do próprio Beckett."
DIVIRTA-CE: Você construiu uma carreira rara no Brasil, transitando com naturalidade entre o teatro experimental, o cinema de autor e a televisão de grande audiência. Existe um ponto de encontro entre esses três universos ou você acredita que cada linguagem exige um artista diferente? O que o teatro ainda oferece que nenhuma câmera consegue captar?
GUILHERME WEBER: Eu acho que o que une esses veículos tão diferentes, como você citou, a televisão de grande alcance popular, o cinema de autor, o teatro experimental, como ponto comum, é a figura do ator. O ator como ponto de expressão, essa figura que empresta o corpo e a subjetividade para a transformação de ideias. Agora, cada um fala sobre o mundo, sobre o ser humano de maneiras diferentes, de recortes diferentes. Então, inevitavelmente exige não só artistas diferentes, mas pensadores diferentes. Cada veículo vai pedir um pensamento diferente. Agora, o que o teatro solicita e oferece, que nenhum outro é capaz, é o repertório absoluto. Do ator, ele solicita coisas que você não vai fazer em outros veículos, o controle do timing está na sua mão, uma certa manipulação da atmosfera no seu entorno, uma sensação quase quântica mesmo, de que você movimenta moléculas da atmosfera, do teatro, do espaço entre você e o espectador. É energia de molécula. Realmente é uma coisa que só o ator de teatro é capaz de experimentar, e o público vai receber essa combustão e essa consumação na frente dele de se transformar, corpos, suor, sangue, nervos, tem ideias.
DIVIRTA-CE: "Fim de Partida" apresenta personagens presos a uma relação de dependência marcada pela violência, pelo afeto e pela impossibilidade da ruptura. Clov parece viver permanentemente à beira da partida, mas nunca parte. Como você trabalhou essa tensão entre o desejo de liberdade e a incapacidade de romper com aquilo que o aprisiona?
GUILHERME WEBER: Então, às vezes, a sensação que dá é que o Clov escolheu a servidão como destino, mas ele também passa a peça toda ensaiando um desejo que a gente não sabe se é legítimo ou se é parte de uma farsa, que é o desejo da partida. Essa grande pergunta, "por que o Clov não parte?", talvez seja uma das grandes questões do teatro moderno ocidental, já que o Beckett é um dramaturgo tão importante. Sempre se fala muito sobre isso. Por que ele simplesmente não vai embora? Por pena, por medo, por compaixão, por sintoma. E é um clássico que pode ser lido sobre diversas lentes, mas se você faz uma análise a partir da lente da psicanálise, tem uma frase do Lacan que diz isso: "o neurótico está eternamente arrumando a mala para uma viagem que nunca vai fazer". Então talvez o Clov seja esse neurótico por excelência da definição do Lacan. Eu fui trabalhando isso como esse corpo encarcerado que o próprio cenário provoca, porque é um cenário baixo, então esse corpo que está se deformando na presença daquele mestre, com reações involuntárias físicas. Por exemplo, toda hora eu crio uma espécie de espasmo onde esse personagem bate uma continência, como se fosse já uma reação involuntária do corpo. E a maneira como ele expressa com total esperança, cada vez que ele percebe uma possibilidade de partir, que ele vai criando vários planos de como ele vai partir ao longo da peça. E cada vez que ele tangencia uma parte desse plano, eu tento expressar isso com a maior dose de esperança possível. Eu acho que isso é um contraponto interessante, que eu acho que foi a maneira como eu optei por trabalhar essa dicotomia.
DIVIRTA-CE: Você foi quem sugeriu a Marco Nanini que os dois montassem "Fim de Partida", retomando uma parceria iniciada há mais de duas décadas. O que mudou na leitura de Beckett — e de vocês mesmos como artistas — entre aquele primeiro encontro e esta montagem de 2026?
GUILHERME WEBER: O que muda entre nós dois, Nanini e eu, é a passagem do tempo, é a maturidade. É o acúmulo de repertório. Esperar tanto para fazer o Fim de Partida também tinha esse propósito, esperar um tipo de envelhecimento, um tipo de maturidade. É chegar mais próximo dos personagens e aí mais próximo do Beckett. Esse dramaturgo escreveu essa obra falando sobre velhice, decadência, mutilação, mas também sobre alguma possibilidade de redenção através do cotidiano e também através da arte, através das relações humanas e das relações fictícias criadas. É uma bela alegoria também sobre a arte como tábua de salvação. Então eu acho que a gente está mais próximo do repertório dos personagens, eu acho que o abismo entre nós de idade diminuiu. A gente tem uma relação mais possível, como vivência mesmo em cena, e o prazer de contracenar com um ator como Nanini continua intacto. É um ator que sabe jogar muito bem, que sabe preparar muito bem a cena, de uma fala muito sofisticada, mas também muito popular e que tem um olhar muito piedoso sobre os personagens que ele interpreta.
DIVIRTA-CE: O diretor Rodrigo Portella propõe uma leitura política da peça, em que Hamm representa um poder autoritário e Clov simboliza alguém preso à lógica da obediência. Em um mundo atravessado por guerras, polarizações e crises democráticas, você acredita que Beckett se tornou mais atual hoje do que quando escreveu a obra nos anos 1950?
GUILHERME WEBER: O Beckett é um dramaturgo de exceção que já está no lugar da genialidade, da produção dos clássicos. Aí me lembro da frase do Ítalo Calvino que fala que o clássico é uma obra que nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer. Então é tão amplo o leque de possibilidades de leitura dessa peça, o Fim de Partida. Pode ser lido sob o viés da filosofia, da psicanálise, da política, do movimento social. Então ele inevitavelmente se atualiza, até porque o ser humano não para de se mutilarem emocionalmente. Particularmente eu observo uma camada específica depois da pandemia, com a vivência da pandemia. Eu acho que a vivência da pandemia criou uma camada subjetiva muito forte sobre o fim de partida desses homens que estão no mundo sozinhos e o mundo que foi dizimado. E também a gente está beirando um colapso climático. Eu acho que isso é muito forte também. Temos falas literais, como quando o personagem do Hamm fala: "A natureza nos esqueceu", e o Clov responde: "Não existe mais natureza".
DIVIRTA-CE: Como diretor e roteirista, você também experimentou o outro lado da criação. Quando está em cena, especialmente em um texto tão rigoroso quanto Beckett, o diretor que existe em você ajuda o ator ou, em alguns momentos, se transforma em um crítico difícil de silenciar?
GUILHERME WEBER: O diretor em mim sempre ajuda, nunca atrapalha. Porque quando você dirige, você ganha perspectivas maiores, você passa a enxergar o espetáculo como um todo e não mais sobre aquela defesa a partir do seu próprio personagem, aquela única defesa. Então você passa a trabalhar com uma consciência muito maior do todo e isso é muito mais rico para a criação. E depois, porque eu sou um ator apaixonado, então quando eu vou trabalhar com um diretor novo, como agora, no caso com o Rodrigo Portella, eu não quero dirigir o espetáculo junto. Pelo contrário, eu quero me zerar, me resetar, para mergulhar no universo desse diretor e ver o que ele vai solicitar, o que vai pedir do meu repertório. Então a minha parte de diretor nunca me atrapalha, o diretor em mim sempre me ajuda.
DIVIRTA-CE: Possui novos projetos para cinema, teatro, TV ou streaming que possa adiantar aos leitores do DIVIRTA-CE?
GUILHERME WEBER: Meu próximo projeto será uma direção teatral no Rio de Janeiro. Vou dirigir "Descalços no Parque", de Neil Simon, com Larissa Manoela, Luiz Frambach, Flávia Reis e Cláudio Mendes. Estreamos no dia 8 de outubro, no Teatro Clara Nunes. É uma peça deliciosa, um retrato bem-humorado sobre casamento, juventude e convivência.
SERVIÇO
Fim de Partida
Local: CAIXA Cultural Fortaleza (Av. Pessoa Anta, 287 – Praia de Iracema)
Últimas apresentações: sábado (18), às 19h, e domingo (19), às 18h
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Duração: 100 minutos
Classificação: 16 anos
Acessibilidade: Sessão de domingo (19) com tradução em Libras e acesso para pessoas com deficiência.
