O cinema cearense atravessou fronteiras e voltou de Berlim com a mala cheia de reconhecimento. Dois longas-metragens realizados no Estado — “Feito Pipa” e “Fiz um foguete imaginando que você vinha” — foram premiados na 76ª edição do , a Berlinale 2026, um dos três festivais mais importantes do circuito mundial ao lado de Cannes e Veneza. As produções, que têm em comum a origem em processos formativos da e locações no município de , reafirmam a força do audiovisual cearense e sua capacidade de dialogar com plateias globais sem abrir mão da identidade local.
Dirigido pelo cearense , “Feito Pipa” foi um dos grandes destaques da mostra Generation Kplus, dedicada a narrativas voltadas à infância e à juventude. O filme conquistou o Urso de Cristal, concedido pelo júri infantil da seção, e o Grand Prix do Júri Internacional, principal prêmio da mostra. A dupla láurea coloca o longa entre os títulos mais celebrados desta edição do festival e projeta ainda mais a trajetória de Deberton, que já vinha consolidando seu nome como uma das vozes sensíveis do cinema nordestino contemporâneo.
Estrelado por , ao lado de Yuri Gomes e , o filme acompanha Gugu, um menino de quase 12 anos criado com afeto e liberdade pela avó. Quando a saúde dela se fragiliza, o garoto vê ruir o mundo que conhece. Com medo de ser obrigado a viver com o pai, que não o aceita como ele é, Gugu tenta esconder a situação, numa mistura de ingenuidade, coragem e desespero silencioso. Ambientado entre as paisagens marcantes de Quixadá, o longa transforma o sertão em território de afeto, tensão e descoberta, explorando temas como identidade, pertencimento e amor incondicional com delicadeza e potência narrativa.
Se “Feito Pipa” comove pela perspectiva da infância, “Fiz um foguete imaginando que você vinha”, dirigido por , aposta em uma jornada íntima e sensorial. O longa foi premiado pelo Júri de Leitores do jornal alemão , um dos mais respeitados da Alemanha. Exibido na seção Forum, conhecida por acolher obras de linguagem mais autoral e experimental, o filme reafirma a diversidade estética do cinema produzido no Ceará.
Protagonizado por , o longa acompanha Rosa, uma mulher convocada a revisitar a própria história quando já não consegue se reconhecer nela. Incapaz de acessar uma lembrança feliz, ela mergulha numa busca interior que mistura memória, imaginação e delírio. A mãe, interpretada por , torna-se companheira de uma viagem simbólica que atravessa estradas reais e afetivas. O filme constrói, assim, uma narrativa sobre sobrevivência emocional e reconstrução, em que o gesto de lembrar é também um ato de resistência.
Mais do que conquistas individuais, os prêmios na Berlinale evidenciam o amadurecimento de uma política cultural que investe na formação e no desenvolvimento de projetos a longo prazo. Tanto “Feito Pipa” quanto “Fiz um foguete imaginando que você vinha” tiveram etapas de desenvolvimento ligadas aos laboratórios de criação da Escola Porto Iracema das Artes, equipamento da Secretaria da Cultura do Ceará. Ao transformar processos pedagógicos em obras capazes de disputar espaço em um dos palcos mais exigentes do cinema mundial, o Ceará demonstra que a combinação entre formação qualificada, investimento contínuo e liberdade criativa pode gerar resultados de alcance internacional.
Em Berlim, onde tradições cinematográficas se encontram e disputam atenção da crítica especializada, as histórias nascidas no sertão cearense encontraram eco universal. São narrativas profundamente enraizadas em experiências locais, mas que falam de laços familiares, identidade, memória e sonho — temas que atravessam fronteiras. Ao subir ao palco da Berlinale, o cinema feito no Ceará não apenas recebeu prêmios: reafirmou sua vocação para voar alto, como uma pipa que, quanto mais sente o vento, mais firme encontra o próprio rumo.
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