Em meio à aceleração digital que redefine modelos de negócio, cadeias produtivas e relações de consumo, a tecnologia consolidou-se como fundamental nas estratégias corporativas. Inteligência artificial, automação, análise de dados e integração de canais passaram a ocupar o centro das decisões empresariais. No entanto, especialistas alertam que, quando tratada como finalidade e não como instrumento, a tecnologia pode afastar empresas daquilo que realmente sustenta o crescimento no longo prazo: o tratamento do cliente, que interfere diretamente em sua experiência.
A discussão ganha relevância em um momento em que organizações investem volumes crescentes em inovação, muitas vezes impulsionadas pela necessidade (ou vontade) de acompanhar tendências e sinalizar modernidade ao mercado. Para Bosco Nunes, especialista em experiência do consumidor e CEO da AISIKI Customer Experience, a inversão dessa lógica é um dos principais erros estratégicos da atualidade. “A tecnologia deve ser tratada como meio e nunca como fim. Ela é um recurso poderoso para potencializar experiências, mas não substitui a intencionalidade estratégica de gerar conexão. Quando a empresa coloca a ferramenta no centro e não o cliente, ela perde competitividade”, e isso acontece de forma frequente.
Segundo ele, a economia contemporânea não se sustenta apenas na eficiência operacional e na disputa por preço. O diferencial competitivo migrou para o campo da experiência, onde decisões de consumo são influenciadas por fatores sensoriais, emocionais e psicológicos. Uma jornada bem estruturada, seja no ambiente físico ou digital, é capaz de reduzir fricções, gerar sensação de pertencimento e construir vínculos simbólicos com a marca. “Uma boa experiência mexe com múltiplas dimensões do indivíduo. Ela não impacta apenas o racional, mas também o emocional, espiritual e físico, reverberando o aspecto simbólico que aquela marca passa a representar na vida do consumidor”, pontua Bosco.
Para os empresários céticos sobre essa importância, o reflexo dessa conexão aparece positivamente nos indicadores. Clientes satisfeitos tendem a apresentar maior recorrência de compra, elevação do ticket médio e maior propensão à recomendação espontânea, reduzindo custos de aquisição e fortalecendo a reputação institucional, além de elevar faturamento. “Quando o cliente se sente compreendido e valorizado, ele não retorna apenas para consumir novamente, ele tende a defender/promover a marca e a escolher aquela empresa com mais intenção e frequência. Isso impacta diretamente o faturamento e consolida posicionamento de mercado”, destaca.
Nesse contexto, a maturidade digital deixa de ser medida apenas pelo volume de ferramentas implementadas e passa a ser avaliada pela capacidade de transformar tecnologia em valor percebido. Empresas que estruturam suas estratégias a partir da pergunta “que experiência meu cliente precisa receber?” tendem a conseguir canalizar a inovação como amplificadora de resultados. Já aquelas que investem sem clareza de propósito correm o risco de transformar a modernização em custo elevado, com pouco retorno efetivo.
Para especialistas, o cenário atual exige mentalidade de tecnologia é essencial, mas sua aplicação deve estar subordinada a uma visão clara de jornada, percepção de valor e construção de relacionamento. No ambiente competitivo contemporâneo, não são necessariamente as empresas mais digitais que lideram seus setores, mas aquelas capazes de traduzir inovação em experiências relevantes e memoráveis.
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