Produção internacional estrelada por Jim Caviezel enfrenta acusações de caos nos bastidores, contradições sobre financiamento milionário e reacende debate sobre como retratar uma família marcada por investigações, escândalos e guerras políticas
O cinema gosta de heróis. Gosta de trajetórias improváveis, homens contra o sistema, personagens transformados em símbolos de resistência. Mas quando o protagonista é Jair Bolsonaro — ex-presidente cuja passagem pelo poder foi marcada por crises permanentes, investigações envolvendo aliados e familiares, ataques institucionais e um país mergulhado em polarização — qualquer tentativa de transformá-lo em figura épica inevitavelmente se torna também uma disputa política sobre memória, narrativa e omissão.
É exatamente nesse território explosivo que surge Dark Horse, filme internacional protagonizado por Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em A Paixão de Cristo, e que pretende contar a ascensão política de Bolsonaro, especialmente sua campanha presidencial de 2018 e o atentado sofrido em Juiz de Fora.
Mas antes mesmo da estreia, o longa já coleciona uma sucessão de controvérsias que fazem seus bastidores parecerem uma extensão do próprio universo político bolsonarista: denúncias de maus-tratos e precarização no set, suspeitas sobre a origem de recursos milionários, contradições públicas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de questionamentos sobre transparência financeira e interesses eleitorais por trás do projeto.
O problema para os idealizadores do filme é simples: não existe forma de contar a história de Bolsonaro sem encarar a sombra de tudo aquilo que tornou seu nome um dos mais controversos da democracia brasileira recente.
Bolsonaro chegou ao poder vendendo uma promessa poderosa ao eleitorado: o combate radical à corrupção. Apresentava-se como outsider moral, inimigo da velha política e representante de uma nova ética pública. O slogan era claro: romper com práticas históricas de fisiologismo e corrupção.
No entanto, ao longo dos anos, a imagem de “família incorruptível” passou a conviver com investigações, suspeitas e crises que atingiram diretamente o núcleo bolsonarista.
O caso mais emblemático envolve Flávio Bolsonaro e o escândalo das chamadas “rachadinhas”, investigação sobre suposto esquema de devolução de parte dos salários de assessores durante o período em que era deputado estadual no Rio de Janeiro. O ex-assessor Fabrício Queiroz tornou-se peça central da controvérsia após movimentações financeiras consideradas atípicas por órgãos de controle. A defesa de Flávio nega irregularidades e sustenta perseguição política, enquanto o processo enfrentou reviravoltas judiciais e discussões sobre foro privilegiado.
Já Carlos Bolsonaro tornou-se personagem recorrente de controvérsias ligadas à comunicação política radicalizada do bolsonarismo, incluindo investigações sobre redes de disseminação de ataques digitais e alegações envolvendo o chamado “gabinete do ódio”, expressão usada por investigadores e repercutida amplamente pela imprensa — embora negada pelos aliados do ex-presidente.
Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro consolidava pontes com grupos ultraconservadores internacionais, aproximando-se de setores trumpistas, movimentos de extrema-direita e teorias conspiratórias que ampliaram a radicalização do debate político no Brasil.
O próprio Jair Bolsonaro acumulou desgastes sucessivos: condução criticada da pandemia da Covid-19, crises diplomáticas, ataques ao Supremo Tribunal Federal, questionamentos às urnas eletrônicas, investigações envolvendo presentes oficiais — como o caso das joias sauditas — e apurações relacionadas ao ambiente político que antecedeu os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro nega irregularidades e afirma ser alvo de perseguição política.
É nesse cenário que Dark Horse se torna muito mais do que uma produção cinematográfica.
Porque o filme parece tentar construir justamente a versão heroica de um personagem cuja trajetória pública permanece cercada por controvérsias ainda abertas.
Mas nem o próprio projeto escapou das contradições.
A maior crise envolvendo Dark Horse surgiu quando vieram à tona mensagens e áudios revelando a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e investigado por suspeitas de fraude bilionária no sistema financeiro brasileiro. Inicialmente, Flávio minimizou ou negou proximidade com Vorcaro. Depois, admitiu ter articulado apoio financeiro do banqueiro para viabilizar o filme sobre o pai — afirmando tratar-se de uma iniciativa privada e legal, sem qualquer troca de favores.
A controvérsia aumentou porque versões públicas passaram a se contradizer.
Em determinado momento, a produtora responsável negou categoricamente ter recebido dinheiro ligado a Vorcaro. Dias depois, a própria dona da empresa afirmou publicamente que mais de 90% do orçamento do longa havia sido bancado pelo banqueiro — valor estimado em cerca de R$ 61 milhões até o momento, com relatos de negociações ainda maiores nos bastidores. O episódio ampliou questionamentos sobre transparência e coerência das informações prestadas ao público.
Áudios revelados pela imprensa mostram Flávio discutindo pagamentos do filme e demonstrando preocupação com atrasos financeiros que poderiam comprometer a produção e nomes internacionais envolvidos no projeto. A oposição enxergou ali um símbolo devastador: um movimento político que construiu sua identidade sobre combate à corrupção agora associado a um banqueiro investigado por um megacasos de fraude financeira. Flávio nega qualquer irregularidade e afirma que toda negociação foi privada e legal.
Se a origem do dinheiro já provocava desgaste político, os bastidores das filmagens ampliaram ainda mais a crise.
Relatos de trabalhadores, figurantes e técnicos descrevem um cenário distante da superprodução heroica prometida.
Segundo denúncias tornadas públicas, houve acusações de maus-tratos, alimentação inadequada, jornadas exaustivas, falta de estrutura e situações consideradas humilhantes por integrantes da equipe. Um figurante relatou ter sido fisicamente retirado do set após conflitos envolvendo regras sobre celulares. Outros trabalhadores denunciaram atrasos em pagamentos, comida estragada, restrições excessivas de circulação e impedimentos para deixar áreas de gravação. Alguns afirmaram que trabalhadores chegaram a fazer necessidades fisiológicas sem conseguir acesso adequado a banheiros diante das limitações impostas pela produção. O sindicato dos artistas de São Paulo abriu um dossiê para acompanhar as denúncias. Os produtores negam irregularidades e dizem ter seguido protocolos de segurança rígidos por se tratar de uma obra politicamente sensível.
Houve ainda relatos de profissionais que disseram ter descoberto apenas durante as filmagens que participavam de uma obra centrada na figura de Bolsonaro, o que teria provocado desconforto ideológico e abandono de postos de trabalho por parte de integrantes da equipe. Segundo reportagens, parte do audiovisual paulista teria recusado participar do projeto após compreender seu viés político, obrigando a produção a reformular equipes e elevar custos.
Por isso, Dark Horse já nasce sob suspeita de ser menos uma cinebiografia e mais uma tentativa de reconstrução simbólica.
Críticos temem que a obra funcione como uma operação de revisionismo político: um esforço para transformar em epopeia uma trajetória marcada por polarização extrema, investigações familiares, confrontos institucionais e uma longa lista de controvérsias públicas.
A pergunta inevitável é simples — e brutal:
É possível contar a história de Bolsonaro ignorando as rachadinhas, Queiroz, joias sauditas, pandemia, ataques às urnas, tensões democráticas, suspeitas envolvendo aliados e o ambiente político que levou o país ao maior nível de radicalização em décadas?
Ou o silêncio sobre esses temas será justamente a verdadeira mensagem do filme?
Porque, no fim, toda cinebiografia revela tanto aquilo que decide mostrar quanto aquilo que escolhe cuidadosamente esconder.