quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Empreendedoras perdem vendas não por falta de técnica, mas por insegurança na própria capacidade de vender

Mesmo em um cenário de retomada econômica e aumento do número de pequenos negócios no Brasil, um fator silencioso tem limitado o crescimento de muitas empreendedoras: a falta de confiança na própria capacidade de vender. Especialistas em comportamento e desenvolvimento humano alertam que, embora o mercado apresente oportunidades reais, inseguranças internas, autossabotagem e o desalinhamento entre identidade e ação continuam sendo entraves significativos para a performance comercial.
O tema ganha ainda mais relevância quando se observa o avanço do empreendedorismo feminino no país. Dados recentes mostram que as mulheres concentram sua atuação principalmente no setor de serviços (56,8%) e no comércio (25,1%), áreas diretamente ligadas ao atendimento ao cliente, negociação e conversão de vendas. Ainda assim, o crescimento desses negócios nem sempre acompanha o potencial do mercado, justamente por barreiras comportamentais que impactam a segurança na hora de vender.
Além disso, estudos de comportamento do consumidor indicam que cerca de 80% das pessoas não tinham intenção real de compra antes de serem impactadas por uma boa abordagem comercial. Ou seja, a decisão de compra é majoritariamente emocional, e acontece quando há conexão, confiança e clareza na comunicação. Ignorar esse fator é um dos grandes erros estratégicos dos negócios que travam suas vendas sem perceber.
Para Paula Hernandez, especialista em comportamento humano e tomada de decisão, vender não é apenas um processo racional, mas profundamente emocional. “Vender é um ato de comunicação e presença. Quando a empreendedora não confia plenamente no próprio valor, no que entrega e na legitimidade do seu discurso, isso se reflete imediatamente na conversão. A insegurança não está na oferta, está na forma como ela é sustentada internamente”, afirma.
Embora indicadores de confiança empresarial apontem otimismo entre micro e pequenos negócios, esse cenário positivo nem sempre se traduz em resultados comerciais consistentes. Um dos motivos está no erro número um de muitos empresários: não priorizar o comercial. Ao se envolver excessivamente na rotina operacional, acumulando tarefas e apagando incêndios, muitos deixam de acompanhar números, indicadores e decisões estratégicas que sustentam as vendas no dia a dia.
Outro ponto crítico está na ausência de um processo comercial claro. Vendas não podem depender apenas de esforço ou improviso. Um processo precisa ser simples, atraente e fácil de executar, tanto para quem vende quanto para quem compra. Quando o caminho é confuso, longo ou inseguro, a conversão naturalmente cai, independentemente da qualidade do produto ou serviço.
Fatores como autossabotagem, medo de julgamento, crenças limitantes sobre merecimento e excesso de autocobrança aparecem com frequência entre empreendedoras e acabam interferindo diretamente na precificação, na constância das vendas e na capacidade de crescimento sustentável. Mesmo negócios bem estruturados podem sofrer estagnação quando quem lidera não se sente segura para ocupar plenamente o lugar de autoridade que o próprio mercado exige.
“O que muitas mulheres vivem hoje não é falta de competência, mas um desalinhamento entre identidade e ação. Elas sabem o que precisam fazer, mas não se sentem seguras para sustentar esse movimento no dia a dia do negócio”, reforça Paula Hernandez.
Em um mercado cada vez mais competitivo, no qual a diferenciação passa pela confiança, pela clareza de posicionamento e pela capacidade de gerar conexão, especialistas defendem que trabalhar o comportamento e a mentalidade de venda deixou de ser um diferencial e se tornou uma necessidade estratégica. Resgatar a confiança na própria capacidade de vender, estruturar processos comerciais simples e acompanhar números com consistência são caminhos diretos para transformar potencial em resultado real, fortalecer lideranças femininas e sustentar o crescimento dos pequenos negócios no Brasil.

Nenhum comentário: