quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Filme “Nova Terra” entra em fase final de produção e transforma o Sertão Central do Ceará em cenário de memória, ancestralidade e resistência

Dirigido por Fram Paulo, longa-metragem cearense foi contemplado no edital da PNAB e homenageia o teatro, os povos originários e a convivência com o semiárido a partir de filmagens em Senador Pompeu e Quixeramobim, em geossítios do projeto Geoparque Sertão Monumental

O cinema cearense se prepara para receber uma obra profundamente conectada à história, à paisagem e ao imaginário do Sertão Central. O longa-metragem “Nova Terra”, dirigido pelo cineasta Fram Paulo, encontra-se em fase de finalização após ser contemplado pelo edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. O recurso viabiliza a conclusão de um projeto que já havia sido integralmente gravado e que agora se consolida como uma das obras mais autorais do realizador. “O filme já estava gravado. A gente fez toda a parte de produção e gravação, e precisava finalizar. Com a PNAB, agora a gente está finalizando”, explica Fram Paulo.
Com 70 minutos de duração, “Nova Terra” é um longa-metragem de ficção que acompanha a trajetória de um grupo de sete jovens artistas de teatro, personagens marcados por histórias pessoais atravessadas por conflitos, perdas e processos de reconstrução. Em busca de transformação, eles decidem se isolar no sertão para montar uma peça teatral, vivendo uma espécie de retiro artístico em meio à paisagem árida e simbólica do Semiárido cearense.
O isolamento do grupo os conduz a uma jornada que dialoga com a memória ancestral da região. Ao longo da narrativa, os jovens passam a seguir a chamada trilha sagrada dos povos da Mata Branca, povos originários que habitaram o Sertão Central e deixaram registros materiais de sua existência em forma de pinturas rupestres. “O filme é também uma homenagem ao teatro, porque eu venho do teatro, mas é, sobretudo, uma homenagem ao sertão e aos povos que viveram ali antes de nós”, afirma o diretor.
As filmagens aconteceram em Senador Pompeu, Quixeramobim e em áreas que integram o projeto do Geoparque Sertão Monumental, território marcado por grande relevância, geológica, histórica e arqueológica. Entre os cenários estão locais como a Pedra do Letreiro, onde se concentram centenas de inscrições rupestres atribuídas aos povos originários da região. “São mais de 800 inscrições só naquela pedra. São símbolos que ainda não sabemos decifrar completamente, mas que se conectam com outros sítios arqueológicos do Nordeste, como São Raimundo Nonato e áreas da Paraíba”, explica Fram Paulo.
O filme também se ancora fortemente nas lendas do Sertão Central, especialmente na narrativa da Serra do Encantado, localizada na região de Quixeramobim. Segundo a tradição oral, após confrontos com colonizadores — episódios que teriam dado origem a locais como o Riacho do Sangue em Solonópole — parte dos povos originários teria seguido uma trilha até a serra, considerada um território sagrado. “Para os povos originários, a gente não morre, a gente se encanta. Essa ideia de transformação e de conexão com a natureza atravessa todo o filme”, destaca o cineasta.
Ao misturar fatos históricos, mitologia e imaginação, “Nova Terra” constrói um sertão que é, ao mesmo tempo, geográfico e simbólico. “Quando eu era criança, para mim o mundo acabava na Serra do Encantado. Eu imaginava que ali existia um portal para outros mundos, e essa ideia atravessa o filme”, conta Fram Paulo, que cresceu na região e transformou memórias da infância em matéria narrativa.
Além da dimensão simbólica e mítica, o longa aborda temas centrais da convivência com o Semiárido, como a relação com a água, o enfrentamento das estiagens e a preservação das sementes crioulas. “A água e a semente são fundamentais para quem vive no Semiárido. A semente é vida, é futuro. Se a gente perde isso, como o ser humano vai sobreviver?”, reflete o diretor. No filme, esses elementos surgem como metáforas da resistência, da continuidade e da relação profunda entre o ser humano e a terra.
Produzido com baixo orçamento, “Nova Terra” foi realizado em ritmo intenso, com gravações concentradas ao longo de aproximadamente três meses, principalmente aos fins de semana, conciliando a rotina de estudos e trabalho do elenco e da equipe técnica. A maior parte do elenco é formada por artistas locais, reafirmando o compromisso do projeto com a valorização dos talentos do Sertão Central. “Era um elenco jovem, mas com uma entrega impressionante. Mesmo no sol forte do sertão, o set era de alegria e troca”, relembra Fram Paulo.
A produção é assinada pela Uzina Filmes, produtora audiovisual fundada em 2005, cuja trajetória está profundamente ligada à memória histórica e cultural do Sertão Central. A Uzina desenvolve projetos que dialogam com episódios marcantes da região, como o antigo campo de concentração de flagelados da seca de 1932, em Senador Pompeu, hoje lembrado pela Caminhada da Seca, realizada anualmente em homenagem às milhares de pessoas que sofreram e morreram durante o período.
A previsão é que “Nova Terra” seja lançado no segundo semestre deste ano, com exibições iniciais em Senador Pompeu, Quixeramobim e outras cidades da região, antes de circular por diferentes territórios e projetos de difusão cultural. “A ideia é começar pelo território onde tudo nasceu e depois ampliar essa circulação”, afirma o cineasta.
Mais do que um filme, “Nova Terra” se apresenta como um mosaico audiovisual que entrelaça memória, ancestralidade, arte e resistência, convidando o público a revisitar o sertão não apenas como cenário, mas como protagonista de sua própria história.
Sobre Fram Paulo
Cineasta, produtor e artista do audiovisual natural de Senador Pompeu, no Sertão Central do Ceará, Fram Paulo é uma das vozes autênticas do cinema nordestino contemporâneo. Fundador e CEO da Uzina Filmes Produções desde 2005, ele construiu uma trajetória marcada pela investigação da memória, das tradições culturais e dos impactos históricos na vida das comunidades do Semiárido. 
Ao longo de mais de uma década de trabalho, Fram Paulo dirigiu, produziu e assinou diversas obras que transitam entre documentário e ficção — sempre com um olhar sensível sobre identidade, território e resistência cultural. Entre seus trabalhos mais significativos estão o documentário Memórias do Campo de Concentração da Seca de 1932 (2021), que recupera uma página dolorosa da história regional, e a série documental A Rainha e Seus Reis de Barro (2021). 
No campo da ficção, Menino de Carvão (2009) destacou-se ao conquistar prêmios de Melhor Direção e Melhor Fotografia no Festival Nordestino de Cinema do Piauí, e Dona Caroba (2014) demonstrou a versatilidade do cineasta, assumindo funções de roteiro, direção, fotografia e edição. Mais recentemente, Fram contribuiu artisticamente para a produção e fotografia do projeto Os 7 Campos, ampliando ainda mais sua presença no cenário audiovisual independente. 
Em “Nova Terra”, ele dá sequência a esse percurso autoral ao transformar memórias locais, lendas ancestrais e a convivência com o semiárido em um filme que reafirma o sertão como protagonista e espaço simbólico de resistência e criação cultural.

Nenhum comentário: