Projeto idealizado por Aury Porto e Leonardo Ventura articula memória, política, subjetividade e território para pensar as artes cênicas no Brasil contemporâneo
O Podcast Perdigoto, idealizado e apresentado pelos atores Aury Porto e Leonardo Ventura, vem se consolidando como um dos mais instigantes espaços de reflexão crítica sobre o teatro brasileiro na atualidade. Realizado pela mundana companhia durante residência artística no Instituto Capobianco, o projeto se afasta do formato promocional comum aos conteúdos culturais em áudio e aposta numa escuta aprofundada, em narrativas longas e em um pensamento que se constrói a partir da experiência concreta de artistas, coletivos e territórios. Nos episódios mais recentes, o Perdigoto amplia ainda mais seu campo de investigação ao articular história, política, subjetividade e espaço, compondo um retrato complexo e nada complacente das artes cênicas no Brasil.
No episódio 18, intitulado “Censura teatral como caso de polícia no Brasil”, o podcast enfrenta um tema que atravessa a história cultural do país, mas que insiste em se atualizar sob novas formas. A partir de um percurso que remonta ao modernismo brasileiro, o episódio recupera episódios de interdição, perseguição e silenciamento impostos ao teatro, desmontando a narrativa de que a censura pertence apenas ao passado autoritário. O centro da conversa é o relato perturbador de um artista integrante de um grupo que, após apresentar um espetáculo crítico a uma instituição do Estado, passou a sofrer ameaças constantes, processos judiciais e episódios de violência, vivendo sob risco real de morte. O episódio evidencia como, em determinados contextos, o teatro ainda é tratado como ameaça à ordem e como a repressão cultural se manifesta não apenas por meio de proibições explícitas, mas também pela intimidação e pelo desgaste psicológico prolongado. Ao tratar a censura como prática policial e jurídica, o Perdigoto recoloca o debate sobre liberdade de expressão no campo das artes como questão urgente e ainda não resolvida.
O episódio 19, “As ‘doenças’ da gente de teatro”, desloca o foco do embate externo para os conflitos internos que atravessam a vida artística. Sem recorrer a diagnósticos fáceis ou à romantização do sofrimento, o episódio propõe uma escuta atenta sobre as fronteiras entre criação artística e universo psíquico. A partir de duas experiências distintas, a conversa aborda como a elaboração de subjetividades — frequentemente celebrada como motor da criação — também pode produzir esgotamento, ansiedade e adoecimento. O teatro aparece como espaço de exposição radical do corpo e da mente, onde processos criativos se alimentam de memórias, traumas e afetos nem sempre elaborados. Ao evocar dramaturgias atravessadas pela psicanálise e ações retiradas dos “porões” da vida subjetiva, o episódio tensiona a ideia de entrega total ao ofício e convida a repensar os limites entre criação, cuidado e sobrevivência num campo historicamente marcado pela precariedade.
Já no episódio 20, “Mestres do teatro para as crianças no Brasil”, o Perdigoto desloca o olhar para a dimensão pedagógica e ética do fazer teatral. A conversa com Luiz André Cherubini, nascido no Rio de Janeiro e radicado em São Paulo, e Carlos Gomide, goiano que vive em Juazeiro do Norte, no Ceará, revela trajetórias dedicadas ao teatro de bonecos e às linguagens voltadas à infância. Longe de tratar o teatro infantil como um gênero menor, o episódio afirma sua centralidade na formação sensível e crítica do público. As falas dos dois artistas deixam transparecer uma concepção de teatro fundada na transmissão do saber, na militância cultural e no compromisso coletivo, em que o domínio técnico do ofício caminha lado a lado com uma ética do cuidado e do encantamento. Ao reconhecer esses artistas como mestres, o Perdigoto reivindica a importância da memória viva e da continuidade dos saberes num campo frequentemente atravessado por rupturas e apagamentos.
Encerrando a sequência, o episódio 21, “Arquiteturas Eco Cênicas”, amplia o debate ao investigar a relação entre espaço, território e criação artística. O episódio reúne experiências que concebem o espaço cênico não como mero suporte arquitetônico, mas como extensão simbólica e política do trabalho teatral. Em São Paulo, Luciano Carvalho narra o processo de criação de uma arena arbórea na zona leste da cidade, um espaço cênico que nasce da relação afetiva com o território e que funciona também como marco de ocupação cultural do coletivo Dolores Boca Aberta. Em Belém do Pará, Walter Chile apresenta o Teatro Cacuri, projeto singular que articula instrumentos e técnicas da arte pesqueira amazônica e portuguesa com diferentes tipologias de espaços cênicos urbanos, criando uma arquitetura teatral híbrida, profundamente enraizada na cultura local. O episódio evidencia como essas experiências desafiam modelos tradicionais de teatro e propõem modos de criação que integram ecologia, memória e resistência.
Com essa sequência de episódios, o Podcast Perdigoto reafirma sua vocação para pensar o teatro brasileiro a partir de suas tensões mais profundas, recusando leituras simplificadoras e apostando na escuta como ferramenta política e estética. Em um momento em que a cultura volta a ser atravessada por disputas simbólicas e ataques institucionais, o projeto se coloca como um arquivo vivo de experiências e como espaço raro de pensamento crítico, capaz de conectar passado e presente, subjetividade e território, arte e vida.
Serviço
Podcast Perdigoto
Disponível nas principais plataformas digitais de áudio, como Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e Deezer. Os episódios são lançados semanalmente, todas as quartas-feiras.
Idealização, roteiro e apresentação: Aury Porto e Leonardo Ventura
Realização: mundana companhia
Projeto desenvolvido em residência artística no Instituto Capobianco
Curadoria: Alexandre Mate e Wlad Lima
Produção: Nana Yazbek
Trilha sonora e mixagem: Ivan Garro
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