A mamata acabou! Pela primeira vez em 24 anos o fascista não terá mandato e foro privilegiado e deverá ser condenado por diversos crimes
Derrotado por Lula nas eleições presidenciais, senador deixou o Brasil após descumprir determinação do STF para entregar os passaportes. Investigado em diferentes procedimentos, ele se junta a Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem e outros aliados que encontraram nos Estados Unidos um destino longe das autoridades brasileiras. O histórico da família inclui condenações por tentativa de golpe, coação judicial, suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e outros escândalos.
A derrota nas urnas, em vez de representar o início de uma reorganização política no Brasil, terminou com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixando o país e desembarcando nos Estados Unidos. Dois dias depois de perder a disputa presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno de 25 de outubro de 2026, o senador seguiu para Miami, acompanhado da mulher e das duas filhas, depois de descumprir uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia ordenado a entrega de seus passaportes e proibido sua saída do território nacional.
A Polícia Federal confirmou que Flávio cruzou a fronteira brasileira com a Argentina e embarcou em uma aeronave particular rumo aos Estados Unidos. A corporação informou que não encontrou registro de passagem do parlamentar pelos postos oficiais de controle migratório do Brasil. Os passaportes foram cancelados e um alerta migratório foi inserido nos sistemas de fiscalização.
A fuga ganhou contornos ainda mais significativos porque, pouco antes, o próprio senador havia afirmado que permaneceria no Brasil para organizar a oposição ao governo Lula. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, que já vive nos Estados Unidos, havia defendido publicamente que Flávio deixasse o país caso perdesse a eleição. O roteiro acabou se concretizando.
O governo de Donald Trump demonstrou disposição para receber o senador e seus familiares. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, uma autoridade da Casa Branca confirmou que os Estados Unidos concederiam vistos à família. A movimentação contou, segundo fontes ouvidas pelo jornal, com participação de integrantes do governo norte-americano, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio. A possibilidade de asilo político também foi ventilada por aliados, embora visto e asilo sejam instrumentos jurídicos diferentes.
As investigações e os negócios que cercam Flávio
A saída de Flávio acontece quando seu nome está no centro de investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e possíveis irregularidades financeiras. Um dos procedimentos envolve o advogado e empresário Willer Tomaz e operações relacionadas a plataformas de apostas. Ambos negam irregularidades.
Outro caso de grande repercussão é o financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. A Polícia Federal investiga a participação de Flávio e Eduardo na articulação de recursos provenientes do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
Segundo relatórios da PF divulgados em setembro, Flávio teria solicitado R$ 131 milhões para a produção, dos quais aproximadamente R$ 60 milhões teriam sido pagos. Mensagens e áudios encontrados pelos investigadores mostram cobranças do senador ao banqueiro sobre parcelas atrasadas e possíveis encontros presenciais. A apuração também identificou transferências internacionais e movimentações financeiras que precisam ser esclarecidas.
A investigação foi aberta para apurar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados ao financiamento do filme. Eduardo Bolsonaro também aparece nas apurações como possível beneficiário de parte dos recursos. Até o momento, são suspeitas sob investigação, não condenações. Flávio sustenta que não há irregularidade em buscar financiamento privado para a produção cinematográfica.
O histórico do senador também inclui o caso das rachadinhas, que ganhou repercussão nacional quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. O Ministério Público investigou um suposto esquema de devolução de parte dos salários de assessores parlamentares, envolvendo Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio. Também foram apuradas movimentações financeiras e operações imobiliárias relacionadas ao patrimônio do senador. As investigações foram atingidas por decisões judiciais que anularam provas e levaram ao arquivamento do caso, sem condenação criminal de Flávio.
A família Bolsonaro e o histórico de condenações e escândalos
A situação de Flávio não pode ser dissociada do histórico político e judicial de sua família. Jair Bolsonaro, seu pai, foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por participação na trama golpista que buscou impedir a posse de Lula após as eleições de 2022.
A condenação envolveu crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. O julgamento revelou uma articulação que envolveu integrantes do governo anterior, militares de alta patente e aliados políticos, com o objetivo de romper a ordem democrática.
O caso representa um dos episódios mais graves da história republicana brasileira. Um ex-presidente da República foi responsabilizado criminalmente por sua participação em uma tentativa de golpe de Estado.
A trajetória do clã também foi marcada por investigações sobre a compra e venda de imóveis, movimentações financeiras, o caso das joias sauditas, suspeitas de apropriação indevida de presentes oficiais e a investigação sobre inserção de dados falsos de vacinação contra a Covid-19. Esses episódios tiveram diferentes desfechos judiciais e não devem ser confundidos com condenações definitivas, mas compõem o histórico de controvérsias envolvendo o ex-presidente e seus aliados.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, foi condenado pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo. A Corte entendeu que ele articulou pressões internacionais, incluindo sanções econômicas e medidas contra autoridades brasileiras, para tentar interferir no julgamento que condenou seu pai pela tentativa de golpe.
O ex-deputado estava nos Estados Unidos quando foi julgado. A decisão também determinou consequências sobre sua elegibilidade e seu cargo público. Mesmo diante da condenação, Eduardo continuou atuando politicamente no exterior e mantendo interlocução com integrantes do governo Trump.
A família que durante anos construiu sua identidade pública com discursos de combate à corrupção, defesa da família e patriotismo passou a enfrentar uma sequência de processos e investigações que atingem diferentes integrantes de seu núcleo político.
Estados Unidos: o endereço de políticos e influenciadores investigados
Flávio e Eduardo não são os únicos representantes do bolsonarismo que encontraram nos Estados Unidos um destino enquanto enfrentam problemas judiciais no Brasil.
Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), deixou o país em 2025 para evitar o cumprimento de sua condenação a 16 anos de prisão pela participação na trama golpista. Segundo a Polícia Federal, ele atravessou a fronteira com a Guiana e seguiu para os Estados Unidos utilizando passaporte diplomático. Em abril de 2026, foi detido por agentes de imigração norte-americanos na Flórida, permaneceu preso por dois dias e acabou liberado. O Brasil apresentou pedido de extradição.
Allan dos Santos, blogueiro ligado ao bolsonarismo, está nos Estados Unidos desde 2020. Ele deixou o Brasil quando era investigado no inquérito das fake news e teve sua prisão preventiva decretada pelo STF em 2021. É considerado foragido pelas autoridades brasileiras e responde a investigações relacionadas a ataques às instituições democráticas.
Outro nome é Oswaldo Eustáquio, que deixou o Brasil em 2023 e passou a viver na Espanha. Investigado por sua atuação em mobilizações antidemocráticas e ataques às instituições, possui mandado de prisão em aberto no Brasil. Em outubro de 2026, o STF recebeu denúncia contra ele por associação criminosa. A Espanha já havia negado um pedido de extradição apresentado pelo governo brasileiro, alegando possível motivação política na investigação.
Carla Zambelli, ex-deputada federal do PL, também integra essa lista. Condenada pelo STF a dez anos de prisão por envolvimento na invasão dos sistemas eletrônicos do Conselho Nacional de Justiça, em ação executada pelo hacker Walter Delgatti, deixou o Brasil e foi para a Itália. Acabou presa em território italiano após pedido das autoridades brasileiras.
O conjunto desses episódios revela uma característica preocupante de parte do movimento bolsonarista: quando as instituições brasileiras avançam sobre seus integrantes, alguns deles optam por deixar o país, permanecendo no exterior e utilizando redes políticas internacionais para contestar as decisões judiciais.
Trump, a proteção política e o paraíso de bandidos fascistas
A aproximação entre a família Bolsonaro e Donald Trump não é recente. Os dois grupos compartilham referências ideológicas, estratégias de comunicação e uma visão política marcada pelo confronto com instituições, imprensa e adversários.
lDurante o governo Trump, Eduardo Bolsonaro intensificou sua presença nos Estados Unidos e passou a atuar na articulação de pressões contra autoridades brasileiras. A tentativa de utilizar sanções econômicas norte-americanas para interferir no julgamento de Jair Bolsonaro foi considerada pelo STF uma ação criminosa de coação judicial.
Agora, a chegada de Flávio ao território norte-americano amplia essa relação. O senador derrotado nas urnas encontra acolhimento de um governo que mantém proximidade política com seu grupo familiar, enquanto a Justiça brasileira investiga sua participação em diferentes episódios.
É nesse contexto que os Estados Unidos passam a ser vistos por críticos da extrema direita como um verdadeiro paraíso de bandidos fascistas: um território onde figuras ligadas ao bolsonarismo conseguem estabelecer residência, manter articulações políticas e contestar decisões judiciais brasileiras, mesmo quando possuem condenações ou mandados de prisão em aberto.
A expressão traduz a indignação diante de uma situação em que a proteção política internacional pode acabar sendo utilizada como instrumento para escapar das consequências de atos praticados no próprio país.
É necessário distinguir, naturalmente, a existência de investigações, condenações e pedidos de extradição. Nem todos os nomes citados possuem a mesma situação jurídica, e ninguém pode ser considerado culpado por um crime apenas por ser investigado. O problema está na tentativa de transformar qualquer responsabilização judicial em perseguição política, desqualificando instituições e decisões fundamentadas.
A derrota eleitoral e o futuro da extrema direita brasileira
A eleição de 2026 representou mais um confronto direto entre o projeto político de Lula e a tentativa da família Bolsonaro de recuperar o comando do país. Flávio assumiu a candidatura presidencial do PL e procurou apresentar-se como herdeiro político do pai, apostando na força do sobrenome e na mobilização da direita.
A vitória de Lula no segundo turno frustrou essa estratégia. A derrota também evidenciou as dificuldades de transformar a influência política do bolsonarismo em maioria eleitoral nacional.
A saída de Flávio logo depois do resultado acrescentou um elemento inesperado à disputa. Em vez de iniciar no Brasil a organização da oposição que havia prometido, o senador seguiu para os Estados Unidos, onde seu irmão já estava instalado.
A família Bolsonaro, que durante anos se apresentou como defensora da soberania nacional, da ordem e do patriotismo, agora tem dois de seus principais representantes políticos fora do território brasileiro. Um deles condenado por coação judicial; o outro investigado em diferentes procedimentos e alvo de medidas cautelares descumpridas.
O episódio ultrapassa a disputa entre governo e oposição. A questão central é o respeito às instituições, à soberania brasileira e ao princípio de que ninguém está acima da lei.
A democracia não pode ser tratada como propriedade de uma família, nem a Justiça pode ser considerada legítima apenas quando favorece determinado grupo político. Para quem passou anos exigindo punição de adversários e defendendo o rigor das leis, cumprir decisões judiciais deveria ser uma obrigação elementar.
Flávio Bolsonaro agora terá de responder às consequências de sua saída do Brasil e às investigações que continuam em andamento. A travessia para os Estados Unidos pode afastá-lo fisicamente das autoridades brasileiras, mas não encerra os procedimentos judiciais nem apaga os fatos que estão sendo apurados.