Músico morreu aos 72 anos, após cerca de seis décadas de carreira, marcada pelo diálogo entre a música nordestina, o jazz, o blues, o rock e a música erudita
A música brasileira perdeu no domingo, 25 de outubro de 2026, um de seus instrumentistas mais versáteis. Oswaldinho do Acordeon morreu aos 72 anos, deixando uma trajetória de aproximadamente seis décadas dedicada à sanfona, instrumento que aprendeu a dominar ainda na infância e que transformou em ponto de partida para uma extensa pesquisa musical.
A notícia foi confirmada por meio de um comunicado publicado nos perfis oficiais do artista nas redes sociais. A mensagem destacou o reconhecimento que ele conquistou no Brasil e no exterior e a contribuição deixada para a música brasileira. Até a publicação das primeiras notícias sobre sua morte, a causa do falecimento não havia sido divulgada, assim como não tinham sido confirmados publicamente os detalhes sobre o velório e o sepultamento.
A repercussão foi imediata entre músicos e admiradores. O cantor e compositor Chico César lamentou a perda e se despediu do sanfoneiro com uma mensagem que ressaltava a permanência de sua obra. Elba Ramalho também prestou homenagem, destacando que a música do instrumentista continuaria presente na lembrança de quem acompanhou sua trajetória. O guitarrista Nelson Faria manifestou pesar e o reconheceu como um dos grandes sanfoneiros do país.
As homenagens ajudam a dimensionar a importância de Oswaldinho. Seu nome esteve ligado à tradição nordestina, mas sua atuação não se limitou a preservar repertórios conhecidos. Ele explorou diferentes possibilidades do acordeon, aproximou linguagens musicais e demonstrou que a sanfona podia ocupar espaços muito além daqueles tradicionalmente associados ao forró.
Uma infância cercada pela música
Batizado como Oswaldo de Almeida e Silva, Oswaldinho nasceu em 5 de junho de 1954, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Era filho do sanfoneiro baiano Pedro Sertanejo, figura importante para a difusão do forró e da música nordestina em São Paulo.
A presença do pai foi determinante para seu contato precoce com o instrumento. Crescer em uma família ligada à música significava conviver desde cedo com repertórios, ensaios, apresentações e músicos que faziam parte de um universo artístico em constante transformação.
Oswaldinho começou a gravar ainda menino. Aos nove anos, participou de um disco do pai, experiência que marcou o início de uma relação profissional com a música muito antes de muitos artistas começarem a construir suas próprias carreiras. Aos 12 anos, lançou seu primeiro compacto, dando os primeiros passos em um percurso que se estenderia por décadas.
O ambiente familiar também o aproximou de nomes fundamentais da música brasileira. Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Sivuca estiveram entre os artistas com os quais conviveu durante a juventude. A proximidade com diferentes gerações de sanfoneiros ofereceu referências variadas de interpretação, técnica e compreensão do papel do instrumento.
Luiz Gonzaga havia transformado a sanfona em uma das grandes vozes da identidade musical nordestina, levando o baião e outros ritmos regionais a públicos de todo o país. Dominguinhos ampliou essa tradição com uma linguagem marcada pela delicadeza melódica, pelo refinamento harmônico e pela liberdade de interpretação. Sivuca, por sua vez, destacou-se pela versatilidade e pela capacidade de transitar entre diferentes universos musicais.
Nesse contexto, Oswaldinho desenvolveu uma personalidade artística própria. A tradição estava presente em sua formação, mas não funcionava como limite. O acordeon se tornaria um instrumento de investigação, capaz de acompanhar tanto a pulsação de um forró quanto caminhos harmônicos e rítmicos associados a outros gêneros.
A sanfona como instrumento de experimentação
Durante a década de 1970, Oswaldinho consolidou sua carreira fonográfica. Entre os primeiros trabalhos estão Fantástico Oswaldo Silva, lançado em 1973, Só Quero um Xodó, de 1974, e Oswaldinho, de 1975. Na sequência, vieram álbuns como Forró Pop, de 1977, Lágrimas de Namorados, de 1978, e Natureza, de 1979.
Os títulos ajudam a acompanhar uma trajetória que atravessou diferentes momentos da indústria fonográfica brasileira. Naquele período, a música popular experimentava transformações, enquanto artistas de diferentes origens buscavam novas formas de combinar tradição, modernidade e referências internacionais.
Oswaldinho encontrou nesse cenário espaço para desenvolver uma abordagem que preservava a relação com os ritmos nordestinos sem se prender a fórmulas. Seu domínio técnico permitia explorar a sanfona como instrumento melódico, harmônico e rítmico, com possibilidades expressivas que ultrapassavam o acompanhamento tradicional.
A incorporação de elementos do jazz, do blues, do rock e da música erudita tornou-se uma das marcas de sua carreira. Essas aproximações não significavam abandonar o forró, mas investigar o que acontecia quando diferentes linguagens musicais encontravam o mesmo instrumento.
O resultado foi uma trajetória que contribuiu para ampliar a percepção da sanfona dentro da música brasileira. Associada frequentemente às festas juninas, aos bailes e às tradições regionais, ela também podia conduzir improvisações, explorar harmonias complexas e dialogar com estruturas musicais de diferentes origens.
Essa liberdade artística ajudou a consolidar a reputação de Oswaldinho como instrumentista de grande habilidade. Sua contribuição não dependia apenas da execução rápida ou da precisão técnica, mas da maneira como organizava ideias musicais e criava pontes entre repertórios.
Em 1981, lançou Forró in Concert, trabalho que contribuiu para abrir caminho para apresentações em festivais europeus. A circulação internacional demonstrava que a música brasileira feita a partir de tradições regionais podia despertar interesse em outros mercados quando apresentada com personalidade e qualidade instrumental.
Os encontros com outros grandes nomes da música brasileira
A carreira de Oswaldinho também foi marcada por colaborações com artistas de diferentes estilos. Ao longo dos anos, trabalhou com nomes como Rita Lee, Ney Matogrosso, Elba Ramalho e Milton Nascimento, ampliando sua presença para além dos circuitos mais diretamente associados ao forró.
Esses encontros evidenciam uma característica importante de sua atuação: a capacidade de adaptar o acordeon a diferentes contextos sem apagar sua identidade musical. Em vez de funcionar apenas como uma assinatura regional, a sanfona podia dialogar com arranjos de rock, canção popular, música instrumental e outras linguagens.
A convivência com artistas de trajetórias distintas também reforçou a imagem de um músico que não tratava as fronteiras entre gêneros como barreiras intransponíveis. Sua formação estava enraizada na música nordestina, mas sua curiosidade o levou a explorar novas sonoridades e possibilidades de interpretação.
Um dos encontros mais significativos ocorreu em 2004, quando gravou com Dominguinhos e Sivuca o álbum Cada um Belisca um Pouco, lançado pela gravadora Biscoito Fino. O projeto reuniu três grandes nomes do acordeon brasileiro em um trabalho que valorizava tanto suas afinidades quanto suas diferenças.
A reunião tinha um significado especial porque aproximava artistas que haviam construído linguagens próprias a partir do mesmo instrumento. Embora compartilhassem referências, cada um possuía uma maneira particular de trabalhar o ritmo, a melodia e a harmonia.
No caso de Oswaldinho, a experiência reforçava a ligação com a tradição dos sanfoneiros brasileiros e, ao mesmo tempo, a disposição para experimentar. Sua carreira demonstrava que o respeito às raízes não exigia repetição permanente do passado.
Em Asa Branca Blues, de 2002, o próprio título evidenciava a aproximação entre um dos símbolos da música nordestina e a linguagem do blues. O trabalho representava a disposição do instrumentista para explorar encontros entre universos musicais que, à primeira vista, poderiam parecer distantes.
Já Forró Chorado, de 2011, integra uma discografia que percorreu diferentes fases da produção musical brasileira, mantendo a sanfona como centro de uma pesquisa artística contínua.
Um artista entre a tradição e a liberdade
A importância de Oswaldinho do Acordeon pode ser compreendida a partir da relação que construiu entre herança e invenção. A tradição familiar e o contato com grandes sanfoneiros ofereceram a base de sua formação, mas foi sua capacidade de investigar novas possibilidades que deu singularidade ao trabalho.
A sanfona carrega uma longa história na música popular brasileira. Em diferentes regiões, acompanha danças, festas, celebrações e narrativas cotidianas. No Nordeste, tornou-se um dos instrumentos fundamentais de gêneros como o baião, o xote e o forró, ajudando a estabelecer uma identidade sonora reconhecida em todo o país.
Oswaldinho conhecia essa tradição por dentro. Ao mesmo tempo, compreendia que a continuidade de uma linguagem musical também depende da possibilidade de transformá-la. Seu trabalho demonstrou que a sanfona podia manter a ligação com o repertório nordestino e, ainda assim, dialogar com outros ritmos, arranjos e ambientes de apresentação.
Essa versatilidade permitiu que sua carreira atravessasse gerações e espaços distintos. O músico podia ser reconhecido tanto por quem acompanhava a história do forró quanto por instrumentistas interessados nas possibilidades técnicas e expressivas do acordeon.
Sua trajetória também ajuda a questionar uma divisão frequente na maneira como a música brasileira é apresentada: de um lado, as tradições regionais; de outro, os repertórios associados à experimentação e à música instrumental. Oswaldinho mostrou, por meio do próprio trabalho, que essas dimensões podem conviver.
A sanfona não precisava escolher entre preservar suas raízes e explorar novos caminhos. Podia fazer as duas coisas, desde que houvesse conhecimento, personalidade e disposição para experimentar.
A repercussão da morte e a permanência da obra
A notícia do falecimento mobilizou artistas, músicos e admiradores nas redes sociais. As manifestações de Chico César, Elba Ramalho e Nelson Faria destacaram a dimensão artística de Oswaldinho e a importância de sua contribuição para a música brasileira.
O reconhecimento público também está relacionado à extensão de sua carreira. Foram aproximadamente seis décadas de atividade, dezenas de projetos fonográficos e colaborações com artistas de diferentes gerações. Sua trajetória acompanhou mudanças profundas na indústria musical, desde a predominância dos discos físicos até a transformação das formas de distribuição e consumo de música.
Ao longo desse período, manteve a sanfona como instrumento central de sua identidade artística. A escolha não significou permanecer preso a um único repertório, mas explorar as possibilidades de um instrumento que pode ser ao mesmo tempo popular, sofisticado, dançante e experimental.
A morte de um artista com esse percurso também chama a atenção para o papel dos instrumentistas na construção da música brasileira. Cantores e compositores frequentemente ocupam o primeiro plano da memória pública, mas a história dos gêneros musicais depende igualmente daqueles que ampliam as possibilidades dos instrumentos, desenvolvem linguagens e influenciam outros músicos.
Oswaldinho pertence a esse grupo. Sua contribuição pode ser percebida tanto nos trabalhos que deixou gravados quanto nos encontros artísticos que ajudou a construir e na maneira como apresentou a sanfona a diferentes públicos.
A causa da morte não havia sido divulgada nas primeiras informações publicadas em 26 de outubro. Também não havia confirmação pública dos detalhes do velório e do sepultamento até aquele momento.
Aos 72 anos, Oswaldinho do Acordeon deixa uma obra que percorre o forró tradicional, a música instrumental e as experiências de aproximação entre diferentes gêneros. Sua história começou em uma família de sanfoneiros, ganhou forma nas gravações da infância e se expandiu por palcos, discos e colaborações que atravessaram fronteiras musicais.
O instrumento que acompanhou desde menino foi também a linguagem por meio da qual construiu sua identidade. Ao ampliar as possibilidades da sanfona sem romper com suas raízes, Oswaldinho ajudou a demonstrar a riqueza de uma música brasileira que encontra sua força tanto na tradição quanto na capacidade de se reinventar.