Cineasta cearense transforma o território em protagonista de longa que une memória, espiritualidade e crítica contemporânea
Fram Paulo constrói narrativa que mistura teatro, cinema e tradição oral para dar centralidade ao sertão - na foto com o ator Luciano Lopes
O longa Nova Terra, dirigido por Fram Paulo, marca um novo momento na trajetória do realizador do Sertão Central, conhecido por um cinema autoral voltado à memória, às tradições culturais e às experiências do Semiárido. Fundador da produtora Uzina Filmes, ele construiu ao longo dos anos uma filmografia que transita entre documentário e ficção, com obras que investigam episódios históricos e identidades locais, consolidando seu nome no audiovisual independente nordestino.
Na nova produção, Fram aprofunda essa pesquisa estética e temática ao acompanhar sete jovens artistas que se isolam no sertão para criar uma peça teatral. Ambientado em regiões como Quixeramobim e Senador Pompeu, o projeto desloca o território do papel de cenário e o posiciona como força ativa na narrativa, dialogando com vivências pessoais do diretor e com o imaginário coletivo da região.
Com influência do cinema de Glauber Rocha e forte presença da cultura popular, a obra articula temas como ancestralidade, pertencimento e crise ambiental. Realizado de forma independente e finalizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, o trabalho reafirma a potência criativa do interior do Ceará ao transformar o sertão em eixo central de uma construção estética e simbólica.
DIVIRTA-CE - Em “Nova Terra”, o Sertão Central deixa de ser cenário e assume papel de protagonista. Como você construiu essa ideia de território como personagem?
FRAM PAULO - Nasci e me criei no Sítio Oiticica, em Senador Pompeu, e minha relação com o sertão é existencial. Cresci trabalhando na terra, atravessando períodos de seca e fartura, entendendo que não se trata de um vazio, mas de um espaço cheio de memória e força. A Serra do Encantado, em Quixeramobim, sempre alimentou minha imaginação, especialmente após o contato com pinturas rupestres e a história dos povos originários; na obra, transformei essa vivência em linguagem, fazendo do território uma força que molda personagens, provoca conflitos e conduz transformações, com a paisagem, os ventos e a ancestralidade interferindo diretamente no destino dos protagonistas.
DIVIRTA-CE - A narrativa parte da trajetória de jovens artistas de teatro no Semiárido. De que forma sua formação influenciou a estética?
FRAM PAULO - Meu contato com a arte começou na cultura popular, no reisado, no repente e nas histórias contadas no sertão, e antes de qualquer formação veio a poesia; mesmo sem perceber, eu já experimentava o teatro ao recriar essas narrativas no cotidiano. Quando concebi Nova Terra, sabia que teatro, poesia e paisagem estariam integrados, e os jovens artistas dialogam com essa vivência, com a teatralidade presente na palavra, no corpo e na relação com o espaço; inspirado em Glauber Rocha, busquei um cinema possível, conectado à realidade do interior.
DIVIRTA-CE - Como equilibrar pesquisa histórica, tradição oral e imaginação ao tratar dos povos originários?
FRAM PAULO - Foi um processo delicado, porque há poucos registros e muitos atravessados por apagamentos, o que exigiu cuidado para não folclorizar essa memória nem reduzir sua complexidade; trabalho com a ideia de um sertão visível e outro invisível, um ligado à realidade concreta e outro à espiritualidade e à memória, e a criação poética entra como forma de iluminar esses silêncios, construindo uma releitura simbólica baseada em respeito e escuta.
DIVIRTA-CE - Qual foi o maior desafio na etapa de finalização?
FRAM PAULO - A produção já foi desafiadora, mas a conclusão trouxe outra camada, que foi a acessibilidade; com o apoio da política pública, conseguimos trabalhar audiodescrição, legendagem e adaptações para ampliar o acesso, o que exigiu revisitar o material sob uma perspectiva técnica e narrativa, em um processo intenso, mas essencial, que reforça a importância da descentralização e da possibilidade concreta de realização no interior do Ceará.
DIVIRTA-CE - A obra aborda temas como água, sementes e preservação. Que reflexão você pretende provocar?
FRAM PAULO - Quando falo de água, terra e sementes, trato da base da vida, propondo uma reflexão sobre reconexão com a natureza e com saberes ancestrais; o sertão ensina sobre equilíbrio entre escassez e renovação, e o problema surge quando o desequilíbrio é provocado, não se tratando de negar o desenvolvimento, mas de compreender seus limites, com a proposta de provocar uma mudança de consciência que aponte para o respeito à natureza, à ancestralidade e à continuidade da vida.