25ª Parada da Diversidade do Ceará celebra resistência e homenageia deputada Luizianne Lins

Evento realizado na Avenida Beira-Mar chega ao marco de 25 anos com estimativa prevista de público de 1,5 milhão de pessoas, amplia ações de inclusão e reafirma Fortaleza como uma das principais referências nacionais na luta pelos direitos da população LGBTQIA+
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A Avenida Beira-Mar se transforma, na noite deste domingo (28), em um dos maiores símbolos da diversidade e da defesa dos direitos humanos do Brasil. A 25ª Parada pela Diversidade Sexual do Ceará reúne milhares de pessoas em uma celebração marcada pela música, manifestações culturais, militância e pela defesa da cidadania. Realizada no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, a manifestação chega ao seu jubileu de prata consolidada como a segunda maior Parada da Diversidade do país, atrás apenas da realizada em São Paulo. Segundo a organização do evento e o plano operacional elaborado pelo Governo do Ceará e pela Prefeitura de Fortaleza, a estimativa prevista é de aproximadamente 1,5 milhão de participantes ao longo da programação.
Mais do que uma festa popular, a Parada consolidou-se, ao longo de 25 anos, como um dos maiores atos públicos em defesa da igualdade, do respeito e da liberdade no Nordeste. Todos os anos, o evento reúne pessoas de diferentes orientações sexuais, identidades de gênero, religiões, idades e classes sociais, transformando a Beira-Mar em um espaço de convivência, visibilidade e reivindicação por políticas públicas capazes de enfrentar a violência e a discriminação.
A edição deste ano tem como tema "25 anos combinando de não morrer", inspirado na escritora mineira Conceição Evaristo. A frase faz referência à obra Olhos d'Água, em que a autora escreve: "Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer". Ao adotar essa mensagem, o Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB), entidade organizadora da Parada, estabelece uma aproximação entre a luta da população LGBTQIA+ e o enfrentamento ao racismo estrutural, reforçando que ambas compartilham desafios relacionados à violência, à exclusão social e à negação de direitos.
A presidenta do GRAB, Dáry Bezerra, afirma que a Parada chega aos 25 anos mantendo seu caráter de celebração, mas também de mobilização política diante dos desafios enfrentados pela comunidade LGBTQIA+ no Brasil. Para a dirigente, a ocupação das ruas continua sendo uma importante demonstração de resistência em um cenário marcado por tentativas de retrocessos em direitos historicamente conquistados.
Ao longo da Avenida Beira-Mar, oito trios elétricos conduzem a multidão em um percurso que reúne apresentações musicais, performances artísticas, manifestações culturais, falas de representantes dos movimentos sociais e ações de conscientização. O evento também movimenta significativamente a economia da capital cearense, impulsionando hotéis, bares, restaurantes, comércio ambulante, transporte por aplicativo e o setor turístico, que registra aumento na circulação de visitantes durante o fim de semana.

Segurança reforçada e acessibilidade marcam edição histórica
Para garantir a tranquilidade do público, foi montada uma das maiores estruturas operacionais já utilizadas na Parada da Diversidade do Ceará. O esquema reúne mais de 600 agentes de segurança, entre policiais militares, bombeiros, Guarda Municipal e equipes de apoio, além de delegacia móvel, torres de observação, reforço no atendimento de saúde, agentes da Autarquia Municipal de Trânsito e Transporte (AMC) e linhas extras de ônibus para facilitar o deslocamento da população.
Uma das principais novidades desta edição é a criação da ala "Diversidade e Acessibilidade", espaço voltado às pessoas com deficiência e condições específicas. O setor contará com área reservada ao longo da avenida, intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras) durante os discursos, possibilidade de acesso aos trios elétricos para quem desejar participar das atividades e distribuição de abafadores de ruído para pessoas com hipersensibilidade auditiva.
A iniciativa foi construída em parceria com entidades representativas da população com deficiência e amplia o compromisso da Parada com a inclusão. Segundo a organização, promover igualdade significa garantir que todas as pessoas possam participar da manifestação com autonomia, segurança e respeito às suas necessidades.
Além da programação cultural, equipes distribuem materiais informativos sobre prevenção às Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), direitos humanos, combate à violência, enfrentamento à discriminação e serviços públicos voltados à população LGBTQIA+, reforçando o caráter educativo e de conscientização do evento.

Luizianne Lins é homenageada como madrinha da 25ª Parada
Entre os momentos mais simbólicos da noite está a homenagem à deputada federal Luizianne Lins, escolhida pelo Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) para receber o título de madrinha da 25ª Parada pela Diversidade Sexual do Ceará. A cerimônia acontece no trio oficial do movimento, ao lado das ativistas travestis Lukresya Nascimento, de Fortaleza, e Beatriz Chaves, de Camocim, também homenageadas nesta edição.

O reconhecimento destaca a trajetória política de Luizianne na defesa dos direitos humanos e da população LGBTQIA+. Ainda como vereadora de Fortaleza, a parlamentar passou a defender pautas ligadas ao combate à discriminação e à promoção da cidadania. Posteriormente, durante seus dois mandatos como prefeita da Capital, entre 2005 e 2012, implantou políticas públicas que colocaram Fortaleza entre as cidades pioneiras do Brasil na institucionalização de ações voltadas à diversidade sexual.
Entre essas iniciativas está a criação da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual, primeiro órgão municipal dedicado exclusivamente à elaboração de políticas públicas para a população LGBTQIA+. A gestão também instituiu o Plano Municipal de Políticas Públicas para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, documento que orienta ações nas áreas de saúde, educação, assistência social, cultura e direitos humanos.
Outro marco foi a criação do Centro de Referência LGBT Janaína Dutra, equipamento voltado ao acolhimento de pessoas vítimas de violência e discriminação, oferecendo atendimento psicológico, social e orientação jurídica. As iniciativas fizeram de Fortaleza uma referência nacional na implementação de políticas públicas voltadas à diversidade.
Para os organizadores, a homenagem representa o reconhecimento a pessoas que contribuíram para fortalecer a cidadania da população LGBTQIA+ e ampliar o diálogo entre os movimentos sociais e o poder público. Ao lado de Luizianne, também recebem o título de madrinhas as ativistas travestis Lukresya Nascimento e Beatriz Chaves, reconhecidas por sua atuação em defesa dos direitos da comunidade no Ceará.

25 anos de história: como a Parada da Diversidade do Ceará se tornou uma das maiores do Brasil
Quando foi realizada pela primeira vez, no início dos anos 2000, a Parada pela Diversidade Sexual do Ceará tinha como principal objetivo dar visibilidade à população LGBTQIA+, combater o preconceito e reivindicar políticas públicas voltadas à garantia de direitos. Ao longo dos anos, a manifestação cresceu em público, organização e representatividade, tornando-se um dos maiores eventos do calendário cearense e uma referência para o movimento LGBTQIA+ brasileiro.
A cada edição, a Parada passou a incorporar novas pautas sociais, ampliando o debate sobre cidadania, saúde, educação, empregabilidade, cultura, segurança pública, direitos das pessoas trans, enfrentamento à violência, combate ao racismo, inclusão das pessoas com deficiência e promoção da diversidade. Mais do que um evento festivo, consolidou-se como um espaço democrático de mobilização popular, reunindo movimentos sociais, artistas, representantes do poder público, organizações da sociedade civil e milhares de famílias.
O crescimento da manifestação também acompanhou importantes avanços na legislação e nas políticas públicas brasileiras voltadas à população LGBTQIA+, como o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal, em 2011, a autorização do casamento civil igualitário pelo Conselho Nacional de Justiça, em 2013, e a equiparação da homofobia e da transfobia ao crime de racismo pelo STF, em 2019. Embora esses marcos representem conquistas históricas, entidades de direitos humanos lembram que a população LGBTQIA+ ainda enfrenta altos índices de violência, discriminação e exclusão social, tornando as Paradas importantes espaços de conscientização e reivindicação.
Além de seu impacto social, a Parada movimenta significativamente a economia de Fortaleza. O evento atrai visitantes de diversas cidades do Ceará e de outros estados, impulsionando a rede hoteleira, bares, restaurantes, comércio, transporte e o setor de serviços. Também gera oportunidades para artistas, produtores culturais, trabalhadores informais e pequenos empreendedores, fortalecendo a economia criativa da capital.

A origem do Orgulho LGBTQIA+ no mundo
A história das Paradas do Orgulho LGBTQIA+ começou na madrugada de 28 de junho de 1969, quando frequentadores do Stonewall Inn, um bar localizado em Nova York, reagiram às constantes operações policiais realizadas contra pessoas LGBTQIA+. O episódio, conhecido mundialmente como a Revolta de Stonewall, durou vários dias e tornou-se um marco histórico da luta pelos direitos da comunidade.
Naquela época, pessoas LGBTQIA+ eram frequentemente perseguidas, presas e discriminadas apenas por sua orientação sexual ou identidade de gênero. A resistência iniciada em Stonewall inspirou movimentos sociais em diversos países e deu origem, um ano depois, às primeiras marchas do orgulho realizadas em Nova York, Los Angeles e Chicago.
Com o passar das décadas, as Paradas deixaram de ser apenas manifestações de protesto para também celebrar a diversidade, a liberdade e as conquistas obtidas pelo movimento LGBTQIA+, sem perder seu caráter político. Hoje, elas acontecem em centenas de cidades ao redor do mundo e continuam chamando atenção para desafios como a violência, a discriminação, o acesso à saúde, à educação, ao mercado de trabalho e à garantia plena dos direitos humanos.
No Brasil, as primeiras Paradas surgiram na década de 1990. A de São Paulo cresceu rapidamente até se tornar a maior do mundo, enquanto Fortaleza consolidou sua manifestação como a maior do Norte e Nordeste e a segunda maior do país, reafirmando o protagonismo do Ceará na defesa da diversidade e da cidadania.

Entenda o significado da sigla LGBTQIA+
A sigla LGBTQIA+ representa a diversidade de orientações sexuais, identidades e expressões de gênero e foi sendo ampliada ao longo dos anos para incluir diferentes vivências da comunidade.

L representa as lésbicas, mulheres que se relacionam afetiva e/ou sexualmente com outras mulheres. G refere-se aos gays, homens que se relacionam afetiva e/ou sexualmente com outros homens. B identifica as pessoas bissexuais, que podem sentir atração por mais de um gênero.

A letra T engloba travestis, mulheres trans, homens trans e pessoas transgênero, cuja identidade de gênero difere daquela atribuída no nascimento. Q significa queer, termo utilizado por pessoas que não se identificam com os padrões tradicionais de orientação sexual ou identidade de gênero. I representa as pessoas intersexo, que nascem com características biológicas que não se enquadram exclusivamente nas definições típicas de masculino ou feminino. A refere-se às pessoas assexuais, arromânticas ou agênero, conforme o contexto. O símbolo + representa outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero que também integram a diversidade humana.

Mais do que uma sigla, um compromisso com os direitos humanos
Mais do que um conjunto de letras, a sigla LGBTQIA+ tornou-se um símbolo mundial da luta por igualdade, respeito e cidadania. Ela representa milhões de pessoas que defendem o direito de viver plenamente sua identidade, livres da violência, da discriminação e da exclusão.
Ao completar 25 anos, a Parada pela Diversidade Sexual do Ceará reafirma esse compromisso. A manifestação que ocupa a Avenida Beira-Mar vai além da música, das apresentações artísticas e da celebração. Ela mantém viva a memória de quem abriu caminhos para as gerações atuais, fortalece a defesa dos direitos humanos e lembra que a construção de uma sociedade mais justa depende do respeito às diferenças, da valorização da diversidade e da garantia de que todas as pessoas possam viver com dignidade, liberdade e segurança.