ENTREVISTA: Hélio Rôla transforma 90 anos em celebração de arte e liberdade

Em cartaz no Museu de Arte da UFC, exposição celebra nove décadas de vida de um dos maiores nomes das artes visuais cearenses. Em entrevista ao DIVIRTA-CE, artista fala sobre criação coletiva, cidadania, liberdade artística e a parceria que marcou a mostra anterior do artista, "Travessias Híbridas"

POR FELIPE PALHANO
FOTOS: Divulgação 

Aos 90 anos, Hélio Rôla atravessa o tempo sem perder a inquietação criativa. Depois de emocionar o público com "Travessias Híbridas", exposição realizada no Centro Cultural Banco do Nordeste ao lado do artista Wilson Neto, reunindo cerca de 30 obras produzidas em um processo coletivo de três anos, o artista plástico é agora homenageado com a exposição "Hélio Rôla 90 anos", em cartaz no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc). A mostra, com curadoria de Flávia Muluc e Ricardo Resende, revisita mais de meio século de produção artística marcada pela experimentação, pelo diálogo entre arte e ciência e pela recusa em seguir caminhos previsíveis. 
Professor emérito da UFC, médico, pesquisador e um dos protagonistas da arte contemporânea cearense, Hélio construiu uma trajetória singular, transitando entre pintura, desenho, gravura, arte postal, murais, assemblages e, mais recentemente, plataformas digitais. Nesta entrevista exclusiva ao DIVIRTA-CE, ele reflete sobre sua liberdade criativa, o papel da arte como instrumento de cidadania e a experiência transformadora de criar a quatro mãos.

TRAJETÓRIA 
Nascido em Fortaleza em 1936, Hélio Rôla é um dos artistas visuais mais importantes do Ceará e uma referência da arte contemporânea brasileira. Seu contato com as artes começou ainda na infância, quando, por indicação de Antônio Bandeira, passou a frequentar a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), convivendo com mestres como Nice Firmeza, Estrigas, Zenon Barreto e Sérvulo Esmeraldo. Ao longo de mais de seis décadas de produção, construiu uma obra marcada pela experimentação, transitando entre pintura, desenho, gravura, xilogravura, escultura, murais, assemblages, arte postal e, mais recentemente, as plataformas digitais, sempre recusando limitações de linguagem. 

Paralelamente à carreira artística, Hélio Rôla consolidou uma trajetória acadêmica de excelência. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC), concluiu doutorado em Ciências Biológicas na Universidade de São Paulo (USP) e realizou pesquisas e pós-doutorados em instituições de Nova York e Paris. Professor Emérito da UFC, dedicou mais de cinco décadas ao ensino e à pesquisa nas áreas de fisiologia renal e digestiva, tornando-se um raro exemplo de intelectual que integrou ciência e arte como formas complementares de compreender o mundo. Essa visão interdisciplinar tornou-se uma das marcas mais reconhecidas de sua produção artística. 

Reconhecido por sua atuação cultural e pelo engajamento cidadão, Hélio Rôla integrou o histórico Grupo Tauape, responsável pela retomada da xilogravura cearense, e o Grupo Aranha, que realizou emblemáticos murais coletivos em Fortaleza e São Paulo. Suas obras já foram exibidas em importantes exposições no Brasil e no exterior, passando por cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Buenos Aires, Nova York e Cidade do México. Aos 90 anos, segue produzindo intensamente. Depois da elogiada exposição "Travessias Híbridas", realizada em parceria com Wilson Neto, é homenageado pelo Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (Mauc) com a mostra "Hélio Rôla 90 anos", que celebra sua contribuição decisiva para a arte e a cultura brasileiras. 

DIVIRTA-CE: Ao longo de mais de seis décadas de produção, sua obra transitou entre pintura, gravura, escultura, muralismo e, mais recentemente, as plataformas digitais. Como essa recusa em se prender a uma linguagem específica ajudou a construir uma identidade artística tão singular dentro da arte contemporânea brasileira?
Hélio Rôla: Nunca estive preso a uma galeria, também não deveria. Eu era professor-pesquisador universitário, médico, mas nunca atuei como médico atendente. Daí me virei nos meus tempos livres. Se eu tivesse me ligado a alguma galeria, teria uma linha de procura. Mas segui os caminhos e percursos.
DIVIRTA-CE: Sua trajetória sempre esteve associada ao engajamento social e político, desde a defesa da Escola Chico da Silva até as intervenções urbanas e reflexões compartilhadas nas redes sociais. De que maneira o artista Hélio Rôla e o cidadão Hélio Rôla se alimentam mutuamente em seu processo criativo?
Hélio Rôla: Nem sempre. Tudo começou quando a cultura do forró-hard tomou a Praia de Iracema de sopetão, nos anos 1980 e 1990, com os forrós hiperdecibélicos, que minaram o sossego da vizinhança. Ali, minhas habilidades artísticas, sozinho e com outros, foram de extrema ajuda. Daí surgiu o movimento SOS Iracema. Tempos depois, já na Lagoa Redonda, movi uma campanha contra o abuso sonoro aeroviário noturno sobre Fortaleza, que tem seu aeroporto no centro geométrico da cidade. No sentido da cidadania, na luta pela defesa dos direitos, o cidadão e o artista se fundem em prol do melhor resultado.
DIVIRTA-CE: Nos anos 1980, o Grupo Aranha marcou a história das artes visuais cearenses com a experiência dos murais coletivos. Olhando para aquela época e para a cena contemporânea, o senhor acredita que a arte brasileira perdeu ou ampliou sua capacidade de produzir experiências coletivas e transformadoras?
Hélio Rôla: Decididamente ampliou. Trabalhar com o outro é sempre um reinventar-se, um momento para expandir nossas habilidades e visões. Mas a natureza da convivência importa. Eu e Wilson nos damos bem, não ideologizamos nossa convivência e aprendemos um com o outro. Enquanto pintamos, ouvimos música e rimos muito de tudo e de nada.
DIVIRTA-CE: Em "Travessias Híbridas", sua exposição anterior no Banco do Nordeste Cultural, a criação deixa de ser um exercício individual para se tornar um território de compartilhamento entre artistas de gerações distintas. O que a convivência artística com Wilson Neto revelou sobre sua própria obra e sobre a possibilidade de reinventar-se às vésperas dos 90 anos?
Hélio Rôla: Há artistas que seguem uma determinada maneira de fazer e, ao persistirem, alcançam níveis de excelência e inventividade admiráveis. Bravo! Mas há também aqueles que são artistas múltiplos, fazem uma coisa aqui e outra ali, percorrem caminhos e percursos, encantam-se com as derivas, mudam de ideia e de emoção. Havia, tempos atrás, um certo preconceito contra o artista múltiplo, num contexto cultural que apreciava mais a individualidade. Minha experiência com o parceiro Wilson Neto deixa claro que nossas individualidades se expandem. Aprendemos a pintar com o outro. Pintar com outro alguém equivale a conviver com ele.
DIVIRTA-CE: A exposição parte do encontro entre diferenças estéticas, geracionais e de repertório. Em uma época marcada por polarizações e rupturas, o senhor enxerga essa experiência de criação a quatro mãos como uma metáfora sobre a importância do diálogo também fora do campo da arte?
Hélio Rôla: O exercício de pintar a quatro mãos traz dúvidas, questionamentos e soluções construídas a dois. Essa exposição é fruto de um trabalho de três anos em parceria, realizado em encontros semanais. Com o passar do tempo, essa convivência foi se aprimorando e aprendemos a pintar juntos. Isso vale para a arte e também para a vida.