ENTREVISTA | Ana Beatriz Barbosa: "Sem afetividade não existe aprendizagem"


POR FELIPE PALHANO
Fotos: Divulgação/EduSummit

Referência nacional em psiquiatria e comportamento humano, a médica e escritora defende que o futuro da educação passa pelo fortalecimento da saúde mental, pelo autoconhecimento e pela valorização das relações humanas em um mundo cada vez mais conectado à tecnologia

Com uma trajetória consolidada na psiquiatria, na divulgação científica e na literatura, Ana Beatriz Barbosa Silva tornou-se uma das principais vozes brasileiras quando o assunto é comportamento humano e saúde mental. Médica formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com residência em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela é autora de dezenas de livros de grande circulação, consultora em produções de televisão, palestrante e criadora do Pod People, considerado um dos maiores podcasts brasileiros dedicados à saúde mental. Ao longo da carreira, também elaborou a cartilha antibullying do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), voltada aos profissionais da educação, além de ministrar conferências em todo o país sobre transtornos mentais, neurociência e comportamento humano. 
Em entrevista exclusiva ao DIVIRTA-CE, concedida por ocasião de sua participação no Edu Summit 2026, que aconteceu em Fortaleza, Ana Beatriz faz um alerta contundente sobre a crise emocional que atinge crianças, adolescentes, professores e famílias. Para ela, a escola do século XXI precisa ir muito além da transmissão de conteúdo. "O grande desafio da escola hoje é lembrar a todos o que é ser um ser humano", afirma. Ao longo da conversa, ela defende que conhecimento, valores, afetividade e equilíbrio emocional devem caminhar juntos para formar cidadãos preparados para os desafios de um mundo em rápida transformação.
A psiquiatra também aborda os impactos da hiperconectividade, da inteligência artificial e das mudanças nas relações humanas. Embora reconheça o potencial transformador das novas tecnologias, ressalta que nenhuma inovação substituirá aquilo que considera essencial na educação. "Sem afetividade não existe aprendizagem" e "a inteligência artificial é um instrumento, mas jamais poderá substituir a humanidade", resume.
Outro ponto central da entrevista é o crescente adoecimento emocional dos educadores. Ana Beatriz chama atenção para os altos índices de burnout entre professores e defende que o cuidado com a saúde mental precisa fazer parte das políticas educacionais. "Temos que quebrar esse tabu. Cuidar da saúde mental das crianças passa, necessariamente, por cuidar também da saúde mental dos professores", destaca.
Ao falar sobre o futuro, ela deixa uma reflexão que sintetiza sua visão sobre educação e desenvolvimento humano: "Precisamos voltar a formar seres humanos". Para a psiquiatra, investir em autoconhecimento, regulação emocional e relações mais humanas não é apenas uma necessidade individual, mas um compromisso coletivo para construir uma sociedade mais equilibrada e preparada para os desafios das próximas gerações.
DIVIRTA-CE: A saúde mental deixou de ser um tema periférico e passou ao centro do debate educacional. Na sua avaliação, o que as escolas ainda insistem em tratar como problema de comportamento quando, na verdade, já pode ser um pedido silencioso de ajuda emocional?
ANA BEATRIZ BARBOSA: Todo problema de saúde mental começa com uma alteração de comportamento. O que acontece é que as escolas precisam estar cada vez mais preparadas, com conhecimento e treinamento, para identificar quando mudanças de comportamento, irritabilidade, agressividade, autoagressividade ou heteroagressividade podem estar sinalizando um adoecimento mental. Vivemos um cenário de adoecimento crescente no mundo inteiro. Talvez essa seja a grande pandemia da atualidade. No Brasil, pela primeira vez, as pessoas têm mais medo de adoecer mentalmente do que de ter câncer. Isso mostra que a realidade mudou e exige políticas públicas e privadas capazes de reduzir esse adoecimento. Com a entrada em vigor da NR-1, passou a existir também uma responsabilidade maior em relação à saúde mental dos trabalhadores, e as escolas fazem parte dessa realidade. Precisamos de uma mudança concreta, porque os fatos estão se impondo.

DIVIRTA-CE: A senhora costuma afirmar que muitos transtornos se manifestam ainda na infância e adolescência. Em um contexto de hiperconectividade, excesso de estímulos e relações cada vez mais mediadas por telas, estamos criando uma geração mais ansiosa ou apenas mais consciente sobre emoções e diagnósticos?
ANA BEATRIZ BARBOSA: Estamos criando uma geração muito mais ansiosa, depressiva e com mais transtornos relacionados à saúde mental. Mais consciente, infelizmente, não. Se estivéssemos realmente conscientes, não estaríamos adoecendo tanto. O aumento das informações acontece porque as pessoas adoecem e acabam sendo obrigadas a buscar conhecimento. Pais também procuram entender quando se deparam com o sofrimento emocional dos filhos. A hiperconectividade reduziu justamente aquilo que temos de mais humano: a conexão verdadeira com o outro. Somos seres sociais e, quanto mais nos afastamos dessa natureza, maior tende a ser o adoecimento emocional. Precisamos de informação qualificada, autoconhecimento e autorregulação emocional. Os desafios sempre existirão, mas quem desenvolve equilíbrio emocional aprende a enfrentá-los sem adoecer com tanta facilidade.
DIVIRTA-CE: O ambiente escolar vive hoje um paradoxo. Ao mesmo tempo em que se fala sobre acolhimento emocional, cresce a cobrança por performance, resultados e produtividade. Como equilibrar a excelência acadêmica sem adoecer emocionalmente alunos, professores e gestores?
ANA BEATRIZ BARBOSA: A escola tem hoje um grande desafio: lembrar às pessoas o que significa ser humano. A cobrança aumentou, mas o que deveria aumentar é a capacidade de inspirar. A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária, mas jamais substituirá aquilo que é essencialmente humano. Ela deve servir para ampliar nossas capacidades e não para substituir nossa humanidade. Educar vai muito além de transmitir conteúdo. É formar pessoas com valores, virtudes e pensamento crítico. Hoje, qualquer pessoa encontra informação em poucos segundos. O papel do professor é inspirar essa busca pelo conhecimento e ajudar o aluno a encontrar seu propósito. Sem afetividade não existe aprendizagem. Aprender também é um processo emocional.

DIVIRTA-CE: A inteligência artificial será uma das protagonistas do Edu Summit 2026. A senhora acredita que a tecnologia pode se tornar uma aliada da saúde mental nas escolas ou existe o risco de aprofundarmos relações mais frias, solitárias e emocionalmente superficiais?
ANA BEATRIZ BARBOSA: A inteligência artificial é um instrumento e deve ser utilizada por seres humanos cognitivamente e emocionalmente preparados. Não podemos delegar à tecnologia a responsabilidade de ensinar saúde mental. Quem educa é o ser humano, utilizando a IA como ferramenta para ampliar o acesso ao conhecimento. Se entregarmos nossa humanidade à inteligência artificial, corremos o risco de aumentar ainda mais o adoecimento mental provocado pelo distanciamento entre as pessoas.
DIVIRTA-CE: Em suas análises sobre comportamento, a senhora frequentemente fala sobre empatia, limites e vínculos afetivos. Que tipo de adultos estamos formando quando crianças e adolescentes crescem em um ambiente de estímulo constante, mas, muitas vezes, com escassez de escuta real?
ANA BEATRIZ BARBOSA: Estamos formando exatamente a realidade que vemos hoje: níveis recordes de adoecimento mental no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas convivem com transtornos mentais, e esse número provavelmente é ainda maior, pois muitos casos sequer são diagnosticados. Precisamos voltar a investir naquilo que nos torna humanos. Nascemos humanos, mas nos tornamos seres humanos por meio da construção de valores, virtudes e sabedoria. A inteligência artificial pode transformar diversas áreas, como a medicina, mas nunca substituirá um médico capaz de acolher um paciente nem um professor capaz de inspirar um aluno.

DIVIRTA-CE: O Brasil vive uma epidemia silenciosa de esgotamento emocional entre os professores. O que mais lhe preocupa quando observa a saúde mental dos educadores? E por que ainda se fala tão pouco do sofrimento psíquico de quem ensina?
ANA BEATRIZ BARBOSA: Os índices de burnout entre professores são extremamente elevados. O mais preocupante é que muitas vezes eles ainda são vistos como pessoas que não adoecem, da mesma forma que durante muito tempo se imaginou que médicos não adoecessem. Precisamos quebrar esse tabu. Cuidar da saúde mental dos alunos passa, necessariamente, por cuidar também da saúde mental dos professores. É fundamental investir em prevenção, autorregulação emocional e equilíbrio psicológico. O professor é muito mais do que um transmissor de conteúdo. Ele inspira, acolhe e estabelece vínculos. Sem afeto não existe aprendizagem. Cognição e afetividade caminham juntas. Precisamos mudar esse cenário com urgência para construir uma educação mais humana.

DIVIRTA-CE: A senhora também encontrou no universo dos podcasts um espaço de escuta e aprofundamento sobre comportamento humano e saúde mental em uma era marcada pela informação rápida e superficial. O que esse formato lhe permite dizer e ouvir que, muitas vezes, não cabe no consultório, nos livros ou nas redes sociais?
ANA BEATRIZ BARBOSA: Quando comecei a produzir podcasts, em 2019, imaginei que seria difícil conquistar público para conversas longas e profundas. Fui surpreendida por uma enorme quantidade de pessoas que buscava exatamente esse tipo de troca mais humana. Em 2023 nasceu o Pod People, que acabou se tornando uma referência em saúde mental. O podcast permite um diálogo direto, olho no olho, algo que ganhou ainda mais valor depois da pandemia. Também criamos o Pod People Inverso, em que sou entrevistada pelo meu sócio em conversas sobre neurociência, empatia, compaixão e autocuidado. Percebo que existe uma necessidade muito grande de ocuparmos as redes sociais com conteúdos mais profundos e humanos. Essa experiência tem me tornado uma pessoa ainda mais humana, e considero isso maravilhoso.

DIVIRTA-CE: Se a senhora pudesse deixar uma provocação ao público do Edu Summit, formado por gestores, professores e famílias, sobre o futuro emocional das próximas gerações, qual seria o principal alerta que o Brasil precisa ouvir?
ANA BEATRIZ BARBOSA: O Brasil precisa tratar educação e saúde como políticas permanentes de Estado, olhando para o futuro e não apenas para os desafios imediatos. Precisamos voltar a formar seres humanos. Isso começa desde a infância, ensinando às crianças, inclusive com base na neurociência, como funciona o cérebro, como as emoções influenciam as decisões e como o autoconhecimento pode transformar a vida. Quanto mais cedo entendermos quem somos, maiores serão nossas chances de construir uma geração emocionalmente equilibrada. O cérebro é uma máquina extraordinária, mas é a consciência, o autoconhecimento e a capacidade de desenvolver equilíbrio emocional que permitem moldar nossa própria história. É isso que nos ajuda a cumprir nossa missão como seres humanos e também a contribuir para uma sociedade melhor.