Produtor, fotógrafo, roteirista e um dos principais nomes da história do audiovisual nacional, o cearense Luiz Carlos Barreto morreu aos 98 anos. De "Vidas Secas" a "O Que É Isso, Companheiro?", sua trajetória ajudou a consolidar o Cinema Novo e projetou o Brasil no cenário internacional da sétima arte
O Brasil se despediu nesta quarta-feira (22) de um de seus maiores nomes da cultura. Morreu, aos 98 anos, no Rio de Janeiro, o produtor Luiz Carlos Barreto, conhecido nacionalmente como "Barretão". A notícia rapidamente ocupou espaço nos principais veículos de comunicação do país e gerou manifestações de cineastas, atores, produtores, críticos e instituições ligadas ao audiovisual, todos unânimes em reconhecer que sua morte representa o encerramento de um dos capítulos mais importantes da história do cinema brasileiro. Mais do que um produtor de sucesso, Barreto foi um dos homens que ajudaram a construir uma indústria cinematográfica nacional e a levar o Brasil aos maiores festivais do mundo.
Para o Ceará, porém, sua despedida possui um significado ainda mais profundo. Luiz Carlos Barreto nasceu em Sobral, em 20 de maio de 1928, cidade reconhecida por sua tradição intelectual, artística e cultural. Embora tenha desenvolvido praticamente toda a sua carreira no Rio de Janeiro, nunca deixou de ser apresentado como um cearense de Sobral, condição que carregava com orgulho e que frequentemente era lembrada em entrevistas e homenagens. Sua trajetória tornou-se motivo de orgulho para os sobralenses e para todo o Estado, que viu um de seus filhos alcançar uma posição inédita na história do cinema nacional.
Antes de dedicar a vida ao cinema, Barreto iniciou sua carreira no jornalismo. Ainda jovem, trabalhou no jornal O Democrata, ligado ao Partido Comunista Brasileiro. Pouco depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a atuar como fotógrafo da histórica revista O Cruzeiro, uma das mais importantes publicações brasileiras do século XX. Seu talento para a fotografia o levou a registrar acontecimentos históricos dentro e fora do país e, posteriormente, a trabalhar como correspondente internacional na Europa. Durante esse período, estudou Letras na Universidade de Sorbonne, em Paris, ampliando sua formação cultural e desenvolvendo um olhar que mais tarde seria determinante para sua atuação no cinema.
Foi justamente através da fotografia que Luiz Carlos Barreto encontrou o caminho que mudaria sua vida e, de certa forma, também a história do audiovisual brasileiro. Em 1961, ao acompanhar as filmagens de "Barravento", primeiro longa-metragem de Glauber Rocha, aproximou-se do grupo de jovens realizadores que daria origem ao Cinema Novo. A partir daquele momento, tornou-se um dos principais articuladores do movimento que revolucionou a linguagem cinematográfica brasileira ao propor um cinema autoral, crítico e profundamente comprometido com a realidade social do país.
Sua contribuição foi muito além do financiamento das produções. Barreto participou diretamente da criação estética de obras fundamentais, atuando como fotógrafo em clássicos como "Vidas Secas", dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e "Terra em Transe", de Glauber Rocha. Ambos são considerados até hoje entre os maiores filmes da história do cinema latino-americano. O olhar preciso de Barreto contribuiu para construir imagens que atravessaram gerações e passaram a integrar o patrimônio cultural brasileiro.
Em 1962, participou também da realização de "O Assalto ao Trem Pagador", escrito em parceria com Roberto Farias, obra que marcou uma nova etapa de sua carreira e abriu caminho para a criação da L.C. Barreto Produções Cinematográficas. A empresa se transformaria, nas décadas seguintes, em uma das produtoras mais importantes da América Latina e responsável por alguns dos maiores sucessos do cinema nacional.
Poucos produtores conseguiram reunir, ao mesmo tempo, reconhecimento artístico e enorme sucesso de público como Luiz Carlos Barreto. Em 1976, produziu "Dona Flor e Seus Dois Maridos", dirigido por seu filho Bruno Barreto e baseado no romance de Jorge Amado. O filme transformou-se em um fenômeno absoluto de bilheteria, permanecendo durante muitos anos como a produção brasileira mais vista da história. A obra também ajudou a demonstrar que era possível unir qualidade artística e grande alcance popular, consolidando uma nova fase para o cinema nacional.
Nos anos seguintes vieram produções igualmente marcantes, como "Bye Bye Brasil", de Cacá Diegues, considerado um retrato sensível das transformações sociais do país; "Memórias do Cárcere", adaptação da obra de Graciliano Ramos dirigida por Nelson Pereira dos Santos; "Como Era Gostoso o Meu Francês", "Garrincha, Alegria do Povo", "O Padre e a Moça", "Brasil Ano 2000", "Menino do Rio", "Ele, o Boto", "Amor Bandido", "Inocência", "Luzia Homem", "Bossa Nova" e "Casa de Areia". Em cada uma dessas produções, Barreto demonstrava a preocupação em contar histórias profundamente brasileiras, valorizando a diversidade cultural, os conflitos sociais e a riqueza humana do país.
Quando o cinema brasileiro atravessou uma grave crise no início da década de 1990, após a extinção da Embrafilme, Luiz Carlos Barreto voltou a desempenhar um papel decisivo. Participou ativamente da chamada retomada do cinema nacional e mostrou, mais uma vez, sua capacidade de reinventar a produção audiovisual brasileira. Sob sua produção, "O Quatrilho", dirigido por Fábio Barreto, e "O Que É Isso, Companheiro?", dirigido por Bruno Barreto, conquistaram indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, devolvendo ao Brasil protagonismo internacional e reafirmando a qualidade do cinema produzido no país.
Ao longo de mais de seis décadas de atividade, Luiz Carlos Barreto participou da produção de mais de 70 filmes e trabalhou ao lado de alguns dos maiores nomes da cultura brasileira, como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Roberto Farias, Jorge Amado, Fernanda Montenegro, Sônia Braga, José Wilker e tantos outros artistas que marcaram a história do audiovisual nacional. Sua capacidade de identificar talentos, formar equipes e transformar projetos ambiciosos em realidade fez dele uma referência para diversas gerações de produtores.
Sua história também está profundamente ligada à família. Ao lado da produtora Lucy Barreto, construiu uma das parcerias mais longevas e respeitadas do cinema brasileiro. Os filhos Bruno Barreto, Fábio Barreto e Paula Barreto seguiram carreira no audiovisual, formando uma das famílias mais influentes da história do cinema nacional. A L.C. Barreto tornou-se sinônimo de qualidade, inovação e compromisso com a cultura brasileira.
A notícia de sua morte provocou imediata repercussão. Diversos veículos de imprensa destacaram que desaparece um dos últimos representantes da geração responsável por consolidar o Cinema Novo e estruturar a moderna indústria cinematográfica brasileira. Cineastas lembraram sua generosidade com novos talentos, sua capacidade de reunir equipes e seu compromisso permanente com a valorização da produção nacional. Instituições culturais ressaltaram que seu legado ultrapassa os filmes produzidos, estando presente também na formação de profissionais, na defesa das políticas públicas para o audiovisual e na construção de uma identidade própria para o cinema brasileiro.
Para o Ceará, a despedida possui um significado especial. Sobral sempre foi reconhecida como terra de grandes intelectuais, artistas e cientistas, e Luiz Carlos Barreto inscreveu definitivamente seu nome entre os maiores representantes da cultura cearense. Embora tenha vivido grande parte da vida fora do Estado, nunca rompeu seus vínculos com suas origens, sendo constantemente homenageado por instituições cearenses e lembrado como um dos mais ilustres filhos da cidade.
Sua obra permanece como um retrato da própria história do Brasil. Filmes como "Vidas Secas" mostraram a dureza da vida no sertão; "Terra em Transe" refletiu as crises políticas do país; "Dona Flor e Seus Dois Maridos" revelou a riqueza da literatura e da cultura popular; "Bye Bye Brasil" registrou um país em transformação; "Memórias do Cárcere" preservou a memória da repressão política; e "O Que É Isso, Companheiro?" revisitou um dos períodos mais delicados da história recente brasileira. Em todas essas produções, Luiz Carlos Barreto ajudou a construir um cinema capaz de emocionar, provocar reflexão e preservar a memória nacional.
Com sua morte, o Brasil perde um dos principais responsáveis por fazer o cinema brasileiro conquistar reconhecimento internacional. O Ceará perde um de seus filhos mais ilustres. Sobral se despede de um homem que saiu do interior cearense para se transformar em um dos maiores produtores da história da cultura nacional. Seu nome permanecerá associado não apenas aos grandes filmes que produziu, mas também à convicção de que o cinema brasileiro poderia contar suas próprias histórias, revelar sua identidade e ocupar lugar de destaque entre as maiores cinematografias do mundo.