Com uma carreira iniciada em 1971, Soninha atravessou mais de cinco décadas de transformações na imprensa, conquistou espaço nos principais jornais do Estado e fez do colunismo social um território de informação, bastidores políticos, cultura e personagens que ajudaram a contar a história de Fortaleza
A imprensa cearense perdeu, na noite de 15 de outubro de 2026, uma de suas cronistas mais reconhecidas. A jornalista Sônia Maria Pinheiro, conhecida carinhosamente como Soninha, morreu em Fortaleza, aos deixar para trás uma trajetória de mais de cinco décadas dedicada ao jornalismo. Segundo informações divulgadas pelo jornalista Eliomar de Lima e reproduzidas por veículos de comunicação do Estado, a causa da morte foi uma pneumonia. A notícia encerrou uma carreira que atravessou diferentes gerações de leitores, mudanças profundas nas redações e a própria transformação da vida social e política cearense.
Nascida em Natal, no Rio Grande do Norte, Sônia escolheu Fortaleza para construir sua vida profissional. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), começou a trabalhar ainda no primeiro ano da graduação, em 1971, como repórter do jornal O Estado, a convite de Venelouis Xavier Pereira, fundador do periódico. A informação, registrada em publicações que reconstituíram sua trajetória, ajuda a dimensionar a precocidade de uma carreira que se tornaria referência no colunismo social do Ceará.
Naquela época, o jornal impresso ocupava um lugar central na vida cotidiana. Era pelas páginas dos periódicos que leitores acompanhavam os acontecimentos políticos, as mudanças econômicas, a programação cultural e os encontros que movimentavam Fortaleza. A coluna social, por sua vez, funcionava como uma janela para os círculos de convivência da cidade, revelando personagens, hábitos, celebrações e relações que, muitas vezes, extrapolavam os limites dos salões.
Sônia compreendeu as possibilidades desse espaço e construiu uma assinatura própria. Sua escrita não se limitava à descrição de festas, recepções e encontros de personalidades. Em suas mãos, a coluna social também se transformou em um ponto de observação da política, dos negócios e das relações de poder. O resultado foi um trabalho que combinava informação, estilo e proximidade com personagens importantes da vida pública cearense.
Uma carreira que começou na reportagem
Antes de se consolidar como colunista, Sônia experimentou diferentes dimensões do ofício jornalístico. Em O Estado, trabalhou com coberturas que incluíam as áreas social e policial, entrevistou artistas e atletas e dividiu com a jornalista Stela Crisóstomo a produção de uma página dominical. A experiência em diferentes frentes de reportagem contribuiu para formar uma profissional familiarizada com a apuração e com a diversidade de assuntos que compõem o cotidiano de uma cidade.
Depois, passou pelo Correio do Ceará e pela Tribuna do Ceará. Também trabalhou com assessoria de imprensa e relações públicas, atividades que ampliaram sua experiência na comunicação e no relacionamento com fontes e instituições.
A passagem pelo Diário do Nordeste representou outro capítulo importante. Em março de 1982, poucos meses depois da fundação do jornal, em dezembro de 1981, Sônia participou da consolidação do colunismo social da publicação e criou o DN-Gente, espaço dedicado aos personagens e acontecimentos da sociedade cearense. Sua atuação no veículo se estendeu por mais de uma década.
A história profissional de Sônia também se confunde com a evolução dos próprios jornais do Estado. Em um período no qual as redações mantinham equipes dedicadas à cobertura diária da vida social, o colunismo tinha espaço privilegiado na estrutura editorial. As páginas assinadas pelos jornalistas especializados nesse gênero eram acompanhadas por leitores interessados não apenas em saber quem esteve em determinada recepção, mas também em compreender as relações que se estabeleciam entre os protagonistas da vida pública.
Sônia soube ocupar esse território. Seu trabalho se distinguia pela capacidade de circular entre diferentes ambientes, conversar com personagens de universos diversos e transformar encontros em informações destinadas ao leitor.
O colunismo social também era jornalismo de bastidores
Existe uma ideia simplificada de que a coluna social serve apenas para registrar festas, casamentos, aniversários, viagens e eventos frequentados por pessoas conhecidas. A trajetória de Sônia Pinheiro ajuda a demonstrar como essa definição é insuficiente para compreender a relevância que o gênero alcançou na imprensa cearense.
Uma recepção pode reunir empresários, políticos, artistas, representantes de instituições e integrantes de famílias tradicionais. Uma conversa aparentemente informal pode revelar uma articulação em andamento, antecipar uma decisão ou oferecer pistas sobre mudanças que ainda não chegaram ao noticiário convencional. Para identificar o que merece ser publicado, é necessário conhecer os personagens, compreender os contextos e distinguir a simples curiosidade de uma informação relevante.
Foi nesse espaço que Sônia desenvolveu uma de suas marcas profissionais: a aproximação entre o universo social e os bastidores da política e da economia.
Ao longo da carreira, acompanhou personagens que exerceram influência na vida pública do Ceará, entre eles o empresário e político Tasso Jereissati. A presença de informações exclusivas e notícias antecipadas fazia parte da identidade de seu trabalho, como destacaram publicações que analisaram sua trajetória.
Em uma coluna, a escolha de uma palavra, a identificação de um personagem ou a menção a determinado encontro pode produzir sentidos que ultrapassam o registro de uma ocasião. A informação ganha valor quando o jornalista compreende o contexto em que ela está inserida. Sônia construiu sua reputação nesse exercício de observação e seleção.
Isso não significa confundir proximidade com independência jornalística. Ao contrário, a credibilidade de uma coluna depende da capacidade de transformar acesso em informação consistente, mantendo a responsabilidade sobre aquilo que se publica. O reconhecimento profissional conquistado por Sônia ao longo de décadas demonstra o lugar que ela ocupou nessa tradição da imprensa local.
Vinte e três anos de O POVO e uma assinatura inconfundível
Foi no jornal O POVO que Sônia consolidou uma das etapas mais duradouras e conhecidas de sua carreira. A jornalista tornou-se titular de uma coluna social diária em 1996 e permaneceu no veículo por 23 anos, período em que acompanhou acontecimentos, personalidades e transformações da sociedade cearense.
Sua estreia foi marcada pela proposta de combinar informação exclusiva, bastidores políticos, eventos, cultura e elegância. O espaço editorial que ocupava exigia uma relação permanente com fontes, uma agenda de contatos extensa e a capacidade de identificar o que poderia despertar o interesse dos leitores.
A coluna também era reconhecida pela linguagem peculiar. Sônia escrevia com vocabulário elaborado e incorporava expressões em francês, inglês e espanhol, criando um texto que se afastava da linguagem coloquial e conferia personalidade às notas. Essa escolha não era um detalhe decorativo: fazia parte de sua identidade como autora e ajudava a diferenciar sua produção em um ambiente jornalístico no qual diferentes profissionais disputavam a atenção do público.
A jornalista não escrevia como quem apenas organiza uma lista de convidados. Sua coluna tinha voz própria, ritmo e repertório. O leitor encontrava ali uma maneira particular de apresentar os acontecimentos, com referências, comentários e informações que refletiam a experiência acumulada pela autora.
A relação com O POVO também se estendeu à revista O POVO People Luxo, publicação dedicada a temas como estilo de vida, arte, viagens e consumo. Nesse espaço, Sônia ampliou a abordagem sobre os personagens e os ambientes que acompanhava, em uma proposta editorial que reunia comportamento, cultura e sociedade.
Em reportagem publicada em O POVO recordou a contribuição da jornalista para a memória social do Ceará. A publicação também ouviu Clóvis Holanda, profissional que assumiu o colunismo social depois de Sônia e ressaltou a singularidade de sua escrita e a importância de sua relação com as fontes.
O depoimento ajuda a compreender uma característica fundamental de seu trabalho: a dificuldade de reproduzir uma coluna cuja identidade foi construída durante décadas de experiência, observação e escolhas autorais. É possível ocupar uma página, manter uma agenda de eventos e publicar notas diariamente. Reproduzir a perspectiva de uma jornalista, porém, é outra história.
Fortaleza nas páginas de Soninha
A cidade muda de aparência, seus bairros se transformam, novos empreendimentos surgem, antigas casas desaparecem e os lugares de encontro se deslocam. As gerações também se renovam. Personagens que ocupavam as páginas dos jornais deixam a vida pública, enquanto outros passam a protagonizar acontecimentos políticos, empresariais e culturais.
Ao acompanhar esse movimento durante mais de cinquenta anos, Sônia Pinheiro ajudou a registrar uma parte significativa da história cotidiana de Fortaleza.
Suas colunas reuniam nomes, encontros, celebrações, homenagens e acontecimentos que, vistos isoladamente, poderiam parecer pequenos episódios da agenda social. Reunidos ao longo do tempo, entretanto, esses registros permitem observar mudanças de comportamento, permanências familiares, transformações nos ambientes de convivência e a ascensão de novos protagonistas.
O trabalho do colunista também guarda uma dimensão documental. As páginas de um jornal são produzidas para circular em determinado dia, mas permanecem como fontes de consulta para quem deseja compreender uma época. Uma nota publicada décadas atrás pode revelar como determinada personalidade era apresentada ao público, quais instituições ocupavam espaço na imprensa e que acontecimentos mereciam destaque naquele momento.
É nesse sentido que o legado de Sônia ultrapassa a lembrança de sua presença nos eventos. Seu trabalho integra o arquivo da vida social cearense e oferece material para compreender as relações que ajudaram a moldar a sociedade local.
A memória jornalística não é composta apenas por grandes acontecimentos, eleições, crises econômicas ou decisões governamentais. Ela também se constrói com registros cotidianos, nomes, encontros e informações que, reunidos, permitem reconstituir o ambiente de uma época.
Uma coluna social pode ser lida como uma espécie de mapa das relações de uma cidade. Sônia ajudou a desenhar esse mapa durante décadas, acompanhando seus personagens e registrando as mudanças de um Ceará que não permaneceu igual ao longo de sua trajetória.
Uma geração de colunistas que marcou a imprensa cearense
Sônia integrou uma geração de profissionais que conferiu identidade própria ao colunismo social no Ceará. Ao lado de nomes como Lúcio Brasileiro, José Rangel, Regina Marshall, Marcondes Viana, Cláudio Cabral e Lázaro Medeiros, participou de uma tradição jornalística que conquistou espaço relevante nos periódicos locais.
Cada profissional desenvolveu sua própria linguagem, selecionou personagens e estabeleceu diferentes maneiras de observar a sociedade. O que os aproximava era a compreensão de que o colunismo exigia presença, relacionamento, apuração e capacidade de interpretar os ambientes frequentados.
Lúcio Brasileiro, também referência no gênero, apelidou Sônia de “flor da crônica”, expressão lembrada nas homenagens publicadas após sua morte. O apelido remetia à juventude da jornalista entre os cronistas sociais de Fortaleza e acabou incorporado às recordações de sua trajetória.
A importância dessa geração não pode ser medida apenas pelo número de páginas publicadas ou pela quantidade de eventos acompanhados. O colunismo social ocupou um lugar específico na imprensa cearense porque aproximava os jornais de círculos que nem sempre apareciam com a mesma frequência em outras editorias.
A política era observada não somente a partir dos discursos oficiais, mas também das relações entre seus protagonistas. A economia aparecia por meio de empresários, investimentos, encontros e articulações. A cultura se revelava nas estreias, exposições, apresentações e conversas entre artistas e produtores.
Esse olhar não substituía o trabalho das editorias de política, economia ou cultura. Acrescentava outra perspectiva à cobertura jornalística, capaz de identificar movimentos e personagens por caminhos diferentes daqueles percorridos pela reportagem tradicional.
Sônia dominou essa linguagem e ajudou a consolidar sua presença no jornalismo do Ceará.
A transformação da imprensa e a permanência do estilo
A carreira da jornalista atravessou uma mudança histórica nos meios de comunicação. Quando começou a trabalhar, o jornal impresso era uma das principais fontes de informação cotidiana. O fechamento das edições obedecia ao ritmo das redações, e a publicação de uma notícia exclusiva podia garantir ao veículo uma vantagem importante diante da concorrência.
Décadas depois, a internet alterou a velocidade de circulação das informações. As redes sociais passaram a permitir a divulgação imediata de imagens, comentários e notícias, enquanto os leitores ganharam acesso a diferentes fontes de informação ao longo do dia.
O colunismo também precisou se adaptar. A exclusividade deixou de depender apenas da publicação antecipada em papel, e a presença digital ampliou as possibilidades de contato entre jornalistas e leitores.
Sônia acompanhou essa transição sem perder a ligação com o formato que havia marcado sua trajetória. Depois de deixar O POVO, passou a trabalhar no jornal O Otimista, onde assinava a coluna Tapis Rouge, sua última etapa profissional na imprensa.
A continuidade do trabalho em um novo veículo demonstrava a permanência de uma atividade que dependia de características difíceis de automatizar: conhecimento acumulado, reconhecimento de personagens, capacidade de estabelecer relações profissionais e uma linguagem identificável.
A tecnologia pode acelerar a circulação de informações e multiplicar os canais de publicação. Não substitui, por si só, o repertório de quem conhece a história dos personagens, acompanha suas trajetórias e consegue reconhecer a relevância de um acontecimento para além de sua aparência imediata.
Nesse sentido, a trajetória de Sônia oferece uma referência para compreender tanto a tradição quanto os desafios atuais do colunismo social. O formato se modifica, mas a necessidade de apuração, credibilidade, identidade autoral e compreensão do contexto continua presente.
O reconhecimento de uma trajetória
A contribuição de Sônia Pinheiro também foi reconhecida por instituições públicas. Em 2016, a Câmara Municipal de Fortaleza concedeu-lhe o título de Cidadã de Fortaleza, homenagem que reconheceu sua ligação com a capital cearense e sua atuação profissional.
Em 2022, recebeu a Medalha da Ordem Alencarina do Mérito Judiciário do Trabalho, concedida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região. As homenagens registram o reconhecimento institucional a uma carreira que atravessou diferentes fases do jornalismo e manteve presença na vida pública do Estado.
Sua ligação com a categoria profissional também era antiga. Sônia era filiada ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) desde 21 de fevereiro de 1979, sob o registro sindical informado pela entidade.
Em nota publicada após sua morte, o Sindjorce destacou sua participação na construção da história da imprensa cearense e a contribuição do colunismo social para preservar registros e acontecimentos de diferentes gerações.
O reconhecimento de uma carreira não elimina as transformações que o jornalismo precisa enfrentar nem encerra as discussões sobre o papel das colunas sociais. Sua importância está em reconhecer a contribuição de uma profissional que desenvolveu uma linguagem própria, manteve uma trajetória extensa e participou ativamente da história da imprensa local.
O adeus a Soninha
A notícia da morte de Sônia provocou manifestações de pesar entre jornalistas, colegas de profissão, amigos e pessoas que acompanharam seu trabalho. As homenagens publicadas nos dias seguintes destacaram tanto a jornalista quanto a mulher lembrada por sua convivência, personalidade e relação com aqueles que fizeram parte de sua trajetória.
O jornalista Eliomar de Lima também registrou a despedida em seu blog. Em publicação sobre uma missa em memória da colunista, realizada em 23 de outubro, destacou a originalidade de sua escrita e a capacidade de unir o universo social à informação política. A celebração ocorreu na Igreja da Paz, na Aldeota, em Fortaleza.
A repercussão de sua morte nos veículos de comunicação do Ceará revela a dimensão de sua presença profissional. Sônia não era apenas alguém que aparecia nas páginas dos jornais: era uma jornalista que produzia essas páginas, escolhia os assuntos, estabelecia relações com fontes e transformava observações em conteúdo publicado.
A diferença é importante. Em um ambiente no qual a visibilidade frequentemente se confunde com a atividade jornalística, a trajetória de Soninha lembra que, por trás de uma coluna reconhecida, existe um trabalho contínuo de acompanhamento, seleção e redação. O nome impresso no alto da página representa a responsabilidade de quem responde pelo texto e pela informação que chega ao leitor.
Sua ausência deixa uma lacuna em um gênero jornalístico que já passou por profundas mudanças e continua buscando novas formas de dialogar com o público. Não há como reproduzir uma carreira de cinco décadas, porque ela foi construída em circunstâncias históricas específicas, com fontes, experiências, escolhas e uma maneira particular de interpretar a cidade.
O que permanece são os registros publicados, as histórias compartilhadas e a influência exercida sobre a memória da imprensa cearense.
Sônia Pinheiro acompanhou gerações de personagens e viu Fortaleza mudar diante de seus olhos. Registrou acontecimentos que passaram despercebidos para uns, mas ganharam espaço nas páginas que assinava. Entre a reportagem, a coluna social, a política e os bastidores, construiu um percurso que ajuda a explicar por que esse gênero ocupou lugar tão expressivo nos jornais do Ceará.
A morte de Soninha encerra sua presença física nas redações e nos encontros que fizeram parte de sua rotina. Sua produção, entretanto, continua disponível como testemunho de uma época e de uma forma de fazer jornalismo que combinava acesso, apuração, estilo e conhecimento da sociedade.
Em suas páginas, a história do Ceará não aparecia apenas nos grandes anúncios ou nas decisões oficiais. Também surgia em conversas, encontros e personagens que, observados ao longo do tempo, revelavam o movimento de uma cidade inteira.
E é por esse olhar particular, construído durante mais de cinquenta anos de profissão, que Sônia Pinheiro permanece entre os nomes importantes do jornalismo cearense.