“Corrida dos Bichos” transforma o Rio em arena, mas tropeça quando a corrida termina

Produção dirigida por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis impressiona pela ação, pelo universo distópico e pela identidade brasileira, mas seu roteiro não acompanha a força visual da proposta

Há uma ideia excelente no centro de “Corrida dos Bichos”: pegar um dos símbolos mais controversos da cultura popular brasileira, o jogo do bicho, e transformá-lo em um espetáculo esportivo mortal em um Rio de Janeiro devastado por uma catástrofe ambiental. No filme, ricos apostam e controlam corredores pobres, enquanto vidas humanas viram garantia de uma competição televisionada. É uma premissa que poderia render uma distopia particularmente brasileira, e não apenas uma versão tropical de histórias que o cinema internacional já contou.
E é justamente quando abraça essa identidade que o filme dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis se torna mais interessante.
A produção, lançada pelo Prime Video em 7 de agosto, acompanha Mano, interpretado por Matheus Abreu, um jovem que passou boa parte da vida combatendo o sistema da Corrida dos Bichos e acaba obrigado a entrar na competição para tentar salvar a irmã. O Rio apresentado pelo filme é irreconhecível: depois de uma transformação ambiental radical, a cidade se converte em território fragmentado, violento e dominado por uma elite que transformou a desigualdade em entretenimento.
A comparação com “Jogos Vorazes” e “The Running Man” aparece naturalmente, e não é gratuita. A própria crítica internacional percebeu essas referências. O problema é que “Corrida dos Bichos” nem sempre consegue escapar da sombra delas. A Next Best Picture elogiou a energia das provas, mas apontou que as tramas secundárias são subdesenvolvidas e que a narrativa acaba dispersa.
Quando os corredores entram em movimento, entretanto, o filme ganha outra voltagem.
As corridas são o grande triunfo da produção. Parkour, capoeira, perseguições, combates e uma câmera que acompanha os personagens por diferentes espaços criam sequências visualmente vigorosas. A crítica do Cinapse foi particularmente entusiasmada com essa combinação, destacando justamente a utilização de elementos brasileiros para renovar um gênero já bastante explorado pelo cinema.
É aí que o filme encontra uma linguagem própria: não é apenas uma distopia genérica com cartão-postal brasileiro. A capoeira, o jogo do bicho, a arquitetura carioca, a desigualdade social e a transformação da paisagem fazem parte da engrenagem narrativa. O resultado é visualmente mais interessante quando deixa de tentar parecer uma superprodução internacional e assume aquilo que só um filme brasileiro poderia fazer daquela maneira.
O elenco também ajuda. Matheus Abreu sustenta bem o protagonismo e dá a Mano uma combinação de resistência e vulnerabilidade. Rodrigo Santoro, como Abu, encontra espaço para construir um personagem mais teatral e ameaçador. Ísis Valverde, Thainá Duarte, Seu Jorge e os demais integrantes do elenco ampliam a sensação de um universo povoado por figuras que parecem ter sobrevivido a um Brasil que deixou de existir.
Mas o filme tem um problema considerável: há mais mundo do que história.
“Corrida dos Bichos” parece ter material suficiente para uma série inteira. Existem regras, territórios, personagens, relações de poder e conflitos que são apresentados rapidamente, como se o roteiro estivesse tentando montar um universo maior do que as pouco mais de duas horas de duração conseguem comportar. A crítica de The Cinemen, embora positiva, também identificou fragilidades principalmente nas cenas que acontecem fora das corridas.
Essa diferença é importante. O filme funciona muito bem como espetáculo de ação, mas nem sempre consegue produzir a mesma tensão dramática quando os personagens estão parados conversando.
O curioso é que a premissa oferece possibilidades muito mais profundas. A Corrida poderia ser explorada como metáfora para um país em que os pobres colocam o próprio corpo em risco enquanto os ricos transformam sofrimento em espetáculo. Poderia discutir de maneira mais contundente a relação entre entretenimento, violência e desigualdade. O filme até aponta para essas questões, mas frequentemente prefere acelerar em vez de aprofundá-las.
E talvez essa seja sua maior contradição: “Corrida dos Bichos” tem muito a dizer, mas está mais interessado em correr do que em conversar.
Isso não torna o filme ruim. Pelo contrário. Para quem procura ação brasileira com identidade visual própria, a produção entrega uma experiência acima da média. As corridas têm energia, a direção encontra soluções criativas e o desenho daquele Rio futurista é um dos elementos mais fortes da obra.
O que falta é justamente o que poderia transformar um bom filme de ação em uma grande ficção científica brasileira: personagens mais complexos, um roteiro menos dependente de referências conhecidas e uma exploração mais corajosa das ideias que estão por trás daquele espetáculo.
“Corrida dos Bichos” chega ao Prime Video como um filme ambicioso, caro e claramente pensado para apresentar uma franquia. E a estrutura deixa essa porta aberta. A questão é se uma eventual continuação conseguirá fazer aquilo que o primeiro filme apenas ensaia: transformar seu extraordinário universo em uma história tão marcante quanto suas corridas.

VEREDITO: 7/10
Vale assistir? Sim. Principalmente pelas sequências de ação, pelo universo visual e pela tentativa de criar uma ficção científica brasileira de grande escala. Só não espere que o roteiro alcance a mesma velocidade dos corredores.